Já aconteceu com você. O grupo do trabalho, o grupo da família, uma reunião onde alguém diz algo que não está certo. Você digita a resposta. Lê de novo. Pensa no clima que vai ficar, na pessoa que vai se ofender, no almoço de domingo que vai virar um silêncio pesado. E apaga. Manda um "kkk" ou não manda nada. Todo mundo segue como se nada tivesse acontecido, e você fica com aquele gosto estranho na boca pelo resto do dia.
Estamos no Tempo Comum, e a Igreja celebra hoje a memória de Santo Afonso Maria de Ligório, bispo que passou a vida escrevendo sobre a misericórdia de Deus numa época em que quase todos pregavam medo. Ele foi criticado, isolado, expulso da própria congregação que fundou. Disse uma coisa impopular e pagou por ela. As leituras de hoje falam exatamente disso.
Jeremias está cercado. Os sacerdotes e profetas querem sua morte porque ele disse em praça pública o que ninguém queria ouvir sobre a cidade. E ele não recua. Diz aos chefes que continua ali, disponível, mas que a palavra não era dele. No fim, algo surpreendente acontece: o povo comum, aquele que não tinha cargo nem poder, toma partido. "Este homem não merece ser condenado à morte; ele falou-nos em nome do Senhor, nosso Deus."
No Evangelho, a história não termina tão bem. João Batista disse uma frase curta a Herodes: "Não te é permitido tê-la como esposa." Uma frase. Sete palavras que custaram a cabeça dele. E repare no detalhe mais desconfortável do texto: Herodes não queria matar João. O texto diz que "o rei ficou triste". Ele matou por causa de um juramento feito numa festa, diante de convidados, com a taça na mão. Matou para não passar vergonha.
Essa é a parte que dói. O mal daquela cena não veio de um ódio monstruoso. Veio de alguém que tinha medo do que os outros iam pensar. Herodes preferiu a coerência com uma promessa idiota à coerência com a própria consciência. E o preço foi a vida de um homem justo.
A gente não decapita ninguém, claro. Mas quantas vezes por semana a gente faz a versão pequena disso? Deixa passar a piada que humilha o estagiário porque o chefe riu primeiro. Concorda com a decisão que sabe que é injusta porque a reunião já estava longa demais. Não defende a pessoa ausente que está sendo triturada no grupo porque não quer ser a chata. Não é maldade. É medo da plateia. É Herodes em versão escritório.
E também há o outro lado da cena. Às vezes você é quem fala, e o silêncio que vem depois é constrangedor. Ninguém te apoia na hora. Você vai para casa achando que só fez papel de bobo. Mas lembre do que aconteceu com Jeremias: alguém no meio da multidão levantou a voz, e depois um homem chamado Aicam o protegeu. Deus costuma mandar socorro pelo caminho lateral, sem aviso, através de gente que você nem sabia que estava prestando atenção.
O Salmo de hoje é a oração exata de quem está nesse lugar: "Retirai-me deste lodo, pois me afundo!" É bonito que a liturgia coloque essa súplica no meio dessas duas histórias. Como quem diz: você pode ter medo. Pode tremer. Pode achar que vai afundar. Falar a verdade não exige coragem de herói, exige só um passo a mais do que você acha que tem.
Hoje, escolha uma frase que você vem apagando. Uma só. Pode ser um "não concordo com isso" numa conversa, um "acho que ela não merecia esse comentário", um pedido de desculpas que você adia há semanas porque vai ser esquisito. Escreva, respire e envie. Ou diga olhando no olho, se der. Não precisa ser um discurso. João Batista fez com sete palavras.
Que Deus abençoe sua oração.