Domingo à noite, véspera de viagem. A mala está aberta em cima da cama e você vai colocando coisas "por via das dúvidas". Um casaco, caso esfrie. Outro par de tênis, caso chova. O carregador reserva, o remédio que você nunca toma, três livros para quatro dias. No fim, você senta em cima da tampa para conseguir fechar o zíper. E na rodoviária, arrastando aquilo escada acima, pensa: por que eu trouxe tudo isso?
A gente carrega peso demais porque tem medo de faltar. E o medo de faltar não mora só na mala. Mora na agenda que não pode ter um buraco, na conta que precisa ter uma sobra, no discurso ensaiado antes de uma conversa difícil.
Hoje a Igreja celebra a memória de Santa Teresa do Menino Jesus, a Teresinha, uma jovem carmelita que morreu aos 24 anos quase sem sair do convento e, ainda assim, foi proclamada padroeira das missões. Estamos no Tempo Comum, abrindo outubro, mês missionário, e é bonito que ele comece com ela. Teresinha chamava seu jeito de viver a fé de "pequena via": nada de grandes feitos, só a confiança de uma criança que sabe que o Pai está por perto.
O Evangelho parece escrito para ela. Jesus envia setenta e dois discípulos, dois a dois, e a instrução de viagem é desconcertante: "Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias". Nada de mala. Nada de reserva. Eles vão entrar em casas que não conhecem, comer o que puserem na mesa e levar uma única coisa na bagagem: "A paz esteja nesta casa!"
Não é descuido. É estratégia. Quem viaja carregado precisa proteger o que carrega. Olha para os outros como possíveis ladrões, escolhe o caminho pela segurança e não pelo encontro. Quem viaja leve pode parar, sentar, ouvir. Pode aceitar o café que oferecem na porta. Pode depender. E é exatamente aí, na dependência, que o Reino chega perto: "O Reino de Deus está próximo de vós."
Jó, na primeira leitura, está no extremo oposto da mala cheia. Perdeu tudo: bens, filhos, saúde, até a paciência dos amigos. E é justamente sem nada nas mãos que ele diz uma das frases mais firmes da Bíblia: "Eu sei que o meu redentor está vivo". Ele não diz isso apesar de ter perdido tudo. Diz porque, quando tudo caiu, sobrou o que não cai.
Teresinha entendeu isso cedo. Doente, com tuberculose, atravessando noites de escuridão interior, ela escrevia que queria passar o seu céu fazendo o bem sobre a terra. Não tinha força, não tinha currículo, não tinha estratégia. Tinha confiança. E essa bagagem mínima chegou mais longe que muitos navios missionários.
No seu dia, a mochila pesada talvez tenha outro nome. É a necessidade de ter resposta pronta para tudo antes de entrar numa reunião. É o controle que você mantém sobre cada detalhe da festa da família para nada dar errado. É o hábito de só oferecer ajuda quando você tem certeza de que vai conseguir resolver. A gente acha que precisa chegar equipado para ser útil. Jesus manda chegar de mãos livres.
Talvez a missão que você tem hoje não seja num país distante. Talvez seja na casa da sua mãe, no escritório, no grupo de WhatsApp dos vizinhos. E talvez a única coisa que você precise levar seja a paz, dita de verdade, sem agenda escondida.
Hoje, antes de sair de casa, tire da mochila uma coisa que você carrega "por via das dúvidas". Pode ser literal: aquele peso que vai e volta todo dia sem uso. Pode ser uma preocupação que você repassa em loop no caminho. Deixe na mesa. E, ao entrar no primeiro lugar do seu dia, diga por dentro, olhando para quem estiver ali: a paz esteja nesta casa. Depois, repare no que acontece quando você chega mais leve.
Que Deus abençoe sua oração.