Tem um momento estranho no dia seguinte à gripe. A febre cede de madrugada, você acorda meio zonzo, ainda com o corpo mole, e a primeira coisa que faz é olhar o celular para ver quanta coisa se acumulou. Mensagem não respondida, reunião remarcada, a louça da noite anterior ainda na pia. A saúde volta e, junto com ela, volta a vida com tudo que ela pede.
Estamos na 22ª semana do Tempo Comum, o tempo do verde, o tempo das coisas que crescem devagar e sem plateia. E o Evangelho de hoje conta uma cena doméstica, quase sem drama: Jesus sai da sinagoga e entra na casa de Simão. A sogra dele está com febre alta. "Inclinando-se sobre ela, Jesus ameaçou a febre, e a febre a deixou. Imediatamente, ela se levantou e começou a servi-los."
Repare no verbo do meio: inclinando-se. Jesus não cura de longe, de pé, com um gesto solene. Ele se abaixa até a altura de quem está deitado. A cura começa com alguém que desce ao seu nível.
E repare no que vem depois. Ela se levanta e serve. Não é uma frase sobre mulher na cozinha, é uma frase sobre o destino de tudo que a gente recebe. Quem foi levantado tende a levantar alguém. A saúde recuperada, o emprego que apareceu, a conversa que desatou o nó, o dinheiro que chegou na hora certa: nada disso foi feito para terminar em você.
O curioso é que a multidão do Evangelho não entendeu isso. Ao pôr do sol, todo mundo aparece com seus doentes, e Jesus atende um por um, colocando as mãos em cada um. Mas ao raiar do dia ele sai para um lugar deserto, e as pessoas correm atrás "tentando impedi-lo que os deixasse". Elas queriam Jesus só delas. Ele responde: "Eu devo anunciar a boa-nova do Reino de Deus também a outras cidades."
Também a outras cidades. Existe uma forma sutil de agarrar Deus, que é querer que ele resolva o meu caso e fique morando na minha rua. A gente faz isso com pessoas também. Com o padre que fala bonito, com o grupo de oração que funciona, com a comunidade onde a gente se sente confortável. Vira o "eu sou de Paulo", "eu sou de Apolo" que São Paulo desmonta na primeira leitura de hoje, cansado das rixas de Corinto.
E ele desmonta com uma imagem de roça: "Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é que fazia crescer." Ninguém ali é dono da colheita. Um cava o buraco, outro carrega o balde de água, e o que acontece embaixo da terra, na madrugada, ninguém vê nem controla. Paulo chama isso de ser cooperador de Deus. Trabalho de verdade, mão suja de terra, mas sem a ilusão de que o crescimento depende do seu talento.
Isso tira um peso enorme das costas. Você não precisa converter seu irmão, salvar seu casamento sozinho, consertar aquele amigo que está afundando. Você planta. Você rega. O crescer é com Deus, e Deus trabalha no escuro, no tempo dele, muitas vezes em cidades que você nem vai visitar.
O que sobra para a gente é a parte simples e concreta: se levantar quando a febre passa. Fazer o próximo gesto. Servir quem está por perto sem esperar ver o resultado final.
Hoje, pense em uma coisa boa que aconteceu com você nos últimos meses. Algo que você recebeu sem ter merecido especialmente: uma ajuda, uma cura, um alívio, uma segunda chance. Agora escolha uma pessoa e passe adiante um pedaço disso. Pode ser uma mensagem de dez palavras para alguém que está doente. Pode ser lavar a louça que não é sua. Pode ser ligar para aquela pessoa que só te procura quando precisa, e desta vez ser você a procurar.
Não fique esperando ver a planta crescer. Só regue e siga para a próxima cidade.
Que Deus abençoe sua oração.