Há uma cena que qualquer brasileiro conhece sem precisar nomear: a pessoa que "não combina" com o lugar onde está. O executivo que entra num bar de periferia. A mulher simples que senta na primeira fila de um evento de gala. A sensação estranha de que aquilo não está certo, de que alguém entrou onde não devia.
É exatamente esse desconforto que os fariseus sentem quando olham para a mesa de Mateus.
Mateus era cobrador de impostos — o que, naquele tempo e naquele lugar, significava colaborador do ocupante romano. Um traidor. Alguém que enriquecia cobrando do próprio povo em nome de uma potência estrangeira. E Jesus não apenas passa pelo posto de cobrança e troca um cumprimento: ele chama Mateus pelo nome, olha nos olhos e diz "segue-me". Mateus larga tudo e vai.
Logo depois, a mesa está posta. E não é uma mesa discreta. Vieram cobradores de impostos, vieram pecadores — o texto de Mateus não deixa dúvida de que era a turma errada para um mestre religioso respeitável receber em casa. Os fariseus não conseguem nem perguntar diretamente a Jesus: dirigem-se aos discípulos, como quem faz uma reclamação ao gerente porque não tem coragem de falar com o dono.
A resposta de Jesus é direta ao osso: "Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores."
Neste 10º Domingo do Tempo Comum, o fio que atravessa todas as leituras é o mesmo: Deus quer proximidade real, não desempenho religioso. Oséias já tinha anunciado isso séculos antes — "quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos." E Paulo, escrevendo aos Romanos, lembra que até Abraão, o pai na fé, chegou à justiça não pela perfeição dos seus atos, mas pela confiança radical em Deus quando tudo parecia impossível.
O padrão se repete: Deus não opera na lógica do mérito acumulado. Ele opera na lógica do relacionamento.
Pense nas suas próprias "mesas". Aquelas situações em que você se sente o menos qualificado da sala. O projeto onde você entrou sem ter o currículo certo. A conversa espiritual com alguém que parece ter uma fé muito mais sólida que a sua. O grupo de oração onde todos parecem saber as respostas e você ainda está cheio de perguntas. A sensação de que, se as pessoas soubessem de verdade como você é, não te teriam chamado.
Mateus conhecia esse sentimento. Ele era o que os outros apontavam como exemplo do que não se deve ser. E foi justamente esse homem que Jesus escolheu para a sua mesa — e depois para escrever um dos quatro evangelhos.
Paulo diz que a fé de Abraão "lhe foi creditada como justiça". Não os sacrifícios. Não os rituais. A disposição de acreditar quando não havia nenhum motivo humano para isso.
Hoje, você pode fazer uma coisa simples: sentar à mesa. Não a mesa perfeita, não quando você estiver "pronto", não depois de resolver aquele problema que carrega faz tempo. Agora, como está.
A liturgia verde do Tempo Comum não celebra grandes solenes nem dramas cósmicos. Ela celebra o ordinário sendo transformado — o dia a dia, a rotina, a vida que você está vivendo enquanto lê isso. Jesus não vai à mesa dos melhores. Ele vai à mesa onde as pessoas são reais.
Se você tiver um momento hoje, pare um instante antes de uma refeição — almoço, janta, um café — e deixe essa frase assentar: "Eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores." Não como acusação. Como convite.
Você já foi chamado.
Que Deus abençoe sua oração.