Tem um tipo de cansaço que não passa com sono. É o cansaço de quem já tentou de tudo. A pessoa levou o filho a três médicos, mudou a escola, mudou a rotina, rezou, prometeu, chorou no banheiro para ninguém ver, e nada mudou. Se você já esteve nesse lugar, sabe que a pergunta que sobra não é "o que eu faço agora?". É "por que ninguém consegue me ajudar?".
Esse é exatamente o barulho que abre a primeira leitura de hoje. Habacuc não faz oração bonita. Ele reclama com Deus, na cara: "Por que, então, olhando para os malvados, e vendo-os devorar o justo, ficas calado?" É uma pergunta quase indelicada, dessas que a gente pensa mas não diz em voz alta na igreja. E o curioso é que ela está na Bíblia. Deus não apagou a reclamação de ninguém.
Estamos no Tempo Comum, esse tempo sem festa grande, feito para a fé de dia útil. E hoje a Igreja celebra São Domingos, um homem que, num tempo confuso, apostou tudo em anunciar a Palavra com paciência, andando de cidade em cidade a pé. Ele não viu pronto quase nada do que começou. Fé, muitas vezes, é isso.
A resposta que Habacuc recebe não é uma solução imediata. É um prazo: "se demorar, espera, pois ela virá com certeza, e não tardará". E logo depois vem a frase que atravessa a Bíblia inteira: "o justo viverá por sua fé". Viver de fé não é ter certeza de tudo. É continuar de pé enquanto a resposta não chega.
No Evangelho, um pai se ajoelha diante de Jesus. Ele já tinha tentado o caminho oficial: "Levei-o aos teus discípulos, mas eles não conseguiram curá-lo!" Depois, os discípulos perguntam em particular, meio sem graça, por que falharam. Jesus responde: "Porque a vossa fé é demasiado pequena. Em verdade vos digo, se vós tiverdes fé do tamanho de uma semente de mostarda, direis a esta montanha: 'Vai daqui para lá' e ela irá".
Repare no detalhe: a semente de mostarda é minúscula. Jesus não está exigindo uma fé enorme. Ele está dizendo que uma fé mínima, mas viva, já basta. O problema dos discípulos não era tamanho. Era que a fé deles tinha virado técnica. Já tinham feito aquilo antes, já sabiam o procedimento. Chegaram confiando no método, não em Deus.
A gente faz parecido. Depois de um tempo de vida cristã, a oração vira automático: você reza no ônibus com o polegar rolando o feed, repete as mesmas palavras na fila do mercado, pede uma coisa já com a resposta pronta de que não vai adiantar. Isso não é fé pequena. É fé desligada da tomada.
E tem um detalhe bonito nessa cena. Quem destrava a história não é o menino, nem os discípulos treinados. É o pai, que insiste. Ele não chegou com fé forte. Chegou com um filho doente e a última esperança que tinha. Foi suficiente.
Hoje, escolha uma montanha só. Não a lista inteira, uma. O exame que você tem medo de buscar. A dívida. A conversa que você adia há meses. O filho que não te responde mais. Diga em voz alta, com uma frase curta e sua: "Senhor, essa aqui eu não dou conta. Cuida." Sem fórmula, sem promessa, sem barganha. E se nada acontecer hoje, volte amanhã e diga de novo. Habacuc esperou. Domingos caminhou. O pai insistiu. A semente é pequena mesmo, mas semente serve para ser plantada, não para ser medida.
Que Deus abençoe sua oração.