Você já reparou como a gente confunde volume com importância? A notificação que vibra três vezes seguidas parece urgente. O áudio de quatro minutos no grupo da família parece decisivo. Na reunião, quem fala mais alto costuma sair com a razão. Fomos treinados a prestar atenção no que faz barulho, e aí chegamos em casa exaustos sem conseguir lembrar de uma única coisa que realmente importou no dia.
Neste 19º Domingo do Tempo Comum, aquele tempo verde que a Igreja reserva para aprender a viver a fé no meio do ordinário, a liturgia coloca lado a lado dois homens com medo e muito vento em volta.
O primeiro é Elias. Ele está encolhido numa gruta no monte Horeb, fugindo de quem quer matá-lo, e recebe a ordem de sair e esperar Deus passar. Então vem o espetáculo: "Antes do Senhor, porém, veio um vento impetuoso e forte, que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos. Mas o Senhor não estava no vento." Depois um terremoto. Deus também não estava ali. Depois um fogo. Nada. E então, quando tudo se cala, "ouviu-se um murmúrio de uma leve brisa". É nesse fiozinho de som que Elias reconhece o Senhor e cobre o rosto.
O segundo é Pedro. Séculos depois, outra madrugada, outro vento. Os discípulos estão na barca, longe da terra, sacudidos pelas ondas, quando veem alguém caminhando sobre o mar e gritam de pavor achando que é um fantasma. A resposta de Jesus tem três frases curtas e cabe num sussurro: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!"
Pedro se anima, pede para ir ao encontro dele, desce da barca e começa a andar. Até que acontece o detalhe mais humano do Evangelho de hoje: "quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: 'Senhor, salva-me!'"
Repare que Pedro não afunda por falta de coragem. Ele afunda quando o barulho volta a ser mais convincente do que a voz. O vento não era novidade, estava ali desde o começo. O que mudou foi para onde ele estava prestando atenção.
E é assim com a gente também. O vento na sua vida tem nome e endereço: o boleto que vence quinta, o resultado do exame que ainda não saiu, a conversa que você adia há três semanas, o filho que responde por monossílabos, o trabalho que virou uma sucessão de urgências alheias. Nada disso é imaginário, e Jesus não pede que você finja que o mar está calmo. Repare que ele não acalma o vento primeiro para depois chamar Pedro. Ele chama antes: "Vem!" O vento só se aquieta quando os dois já estão dentro do barco.
Deus raramente compete com o barulho. Ele não vai disputar espaço com o feed, com a preocupação das três da manhã, com a ansiedade que grita. Ele fala em brisa. E quem vive com o volume no máximo o tempo todo pode passar a vida inteira achando que não ouve nada.
A boa notícia é que Pedro afunda e não se perde. Ele grita duas palavras, e "Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro". Logo. Sem sermão, sem espera, sem cobrança de currículo espiritual. Primeiro a mão, depois a conversa. Esse é o jeito de Deus com você também nos dias em que a fé fica do tamanho de um pedido de socorro.
Hoje, faça uma coisa pequena: escolha cinco minutos e desligue tudo. Sem música, sem podcast, sem rolar a tela. Pode ser no carro antes de subir para casa, na fila do mercado, na varanda depois do almoço. Fique no silêncio até ele parar de ser incômodo. E, no meio dele, diga a mesma frase de Pedro, com o mesmo tamanho: "Senhor, salva-me". Você vai perceber que a brisa não chegou agora. Ela estava ali o tempo todo, esperando o vento passar.
Que Deus abençoe sua oração.