Você já teve uma semana tão intensa que na segunda-feira seguinte não sabia o que fazer de si? O corpo está ali, mas a cabeça ainda está processando o que aconteceu. E aí, sem saber o próximo passo, você volta para o automático. Abre o e-mail. Confere o celular. Faz o café. Começa a rotina como se nada tivesse mudado.
Pedro fez exatamente isso. Ele tinha visto o túmulo vazio. Tinha encontrado Jesus ressuscitado. Tinha ouvido “Paz esteja convosco.” E o que ele faz? Olha para os outros e diz: “Eu vou pescar.” Volta para o barco, para a rede, para o que sabia fazer antes de tudo começar. E os outros vão junto. Ninguém questiona. Ninguém diz: “Mas Pedro, e a Ressurreição?” Eles só vão.
Estamos na Oitava da Páscoa, esses dias em que a Igreja nos faz reviver a Ressurreição como se fosse nova a cada manhã. E o Evangelho de hoje nos leva a uma cena estranhamente doméstica: uma praia, de madrugada, com cheiro de peixe na brasa.
Os discípulos pescaram a noite inteira e não pegaram nada. Noite inteira. Aquela sensação de esforço vazio que a gente conhece bem. O projeto que não sai do lugar. A oração que parece bater no teto. O dia que termina e você se pergunta o que, afinal, produziu.
Aí amanhece. E tem alguém na margem. “Moços, tendes alguma coisa para comer?” A pergunta é simples, quase banal. Eles respondem que não. E ele diz: “Lançai a rede à direita.” Eles obedecem — talvez por cansaço, talvez por não ter mais nada a perder — e a rede enche tanto que não conseguem puxar.
É João quem percebe primeiro: “É o Senhor!” E Pedro, sempre Pedro, não espera o barco chegar. Veste a roupa e se joga no mar. Ele não calcula, não pondera, não pede licença. Quando reconhece Jesus, corre.
Mas repare no detalhe que costuma passar despercebido. Quando chegam à margem, Jesus já tem brasas acesas, peixe e pão. Ele não precisava dos 153 peixes da rede. O café da manhã já estava pronto. Jesus não estava esperando o resultado deles — estava esperando eles.
Na primeira leitura, esse mesmo Pedro que voltou para o barco aparece diante do Sinédrio, cheio do Espírito Santo, declarando: “Em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual possamos ser salvos.” A pedra que os construtores desprezaram se tornou a pedra angular. O pescador que voltou ao automático se tornou a voz que anuncia.
O que mudou entre o barco e o Sinédrio? O café da manhã. O encontro. O momento em que Jesus apareceu no lugar mais ordinário possível e disse: vem comer.
Talvez você esteja numa fase “eu vou pescar”. Voltou ao automático porque não sabe o próximo passo. Pescou a noite inteira e não pegou nada. O trabalho está mecânico, a oração anda fria, os dias se repetem.
Hoje, preste atenção na margem. Jesus não espera você no momento espetacular. Ele está nas brasas acesas do ordinário — no café que alguém preparou, na palavra inesperada de um colega, no silêncio entre duas tarefas. E a pergunta dele é sempre a mesma: você tem alguma coisa para comer? Não é cobrança. É convite. Ele já preparou a mesa. Só falta você chegar.
Que Deus abençoe sua oração.