Sabe aquele pacotinho de sementes que alguém te deu e você guardou na gaveta da cozinha? Manjericão, talvez. Ou girassol. Você tinha um plano: um vasinho na janela, terra boa, sol da manhã. Passaram-se meses. O pacote continua ali, fechado, impecável, com a validade vencida. A semente foi muito bem preservada. E foi completamente inútil.
Guardar parece cuidado. Muitas vezes é só medo.
Hoje a Igreja celebra São Lourenço, diácono e mártir. É festa, e a cor do dia é o vermelho, a cor de quem entregou a vida inteira. Estamos no meio do Tempo Comum, esse tempo longo e sem fogos de artifício em que a fé precisa acontecer no meio da segunda-feira.
Lourenço era o diácono que cuidava do dinheiro da comunidade cristã de Roma. Quando as autoridades exigiram que ele entregasse os tesouros da Igreja, pediu três dias de prazo. Usou esse tempo para distribuir tudo o que havia entre os pobres. No terceiro dia, apareceu diante do prefeito acompanhado de mendigos, doentes, órfãos e viúvas: aqui estão os tesouros da Igreja. Ele foi morto em seguida, no ano 258. Mas o que ele tinha nas mãos, ninguém conseguiu tomar, porque já não estava nas mãos dele.
O Evangelho da festa é curto e desconcertante. Jesus diz: "Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto".
Repare que a semente não escolhe entre viver e morrer. Ela escolhe entre ficar intacta e virar outra coisa. Enquanto está guardada, ela é exatamente o que sempre foi: um grão. Sozinho. Bem conservado. Quando cai na terra, ela se desfaz, perde a forma, some do mapa por um tempo, e então vira espiga, farinha, pão na mesa de gente que nem sabe o nome dela.
Paulo diz a mesma coisa com outras palavras na primeira leitura: "Quem semeia pouco colherá também pouco e quem semeia com largueza colherá também com largueza". E completa com uma frase que muda o clima de tudo: Deus "ama quem dá com alegria". Não é sobre apertar os dentes e abrir mão. É sobre descobrir que dar é bom.
E aqui a conversa desce da estrada de Roma para a sua semana. A gente guarda muito mais do que sementes. Guarda tempo: a agenda cheia que não tem meia hora para o amigo que está mal. Guarda afeto: o elogio que você pensou e não falou, porque ficaria estranho. Guarda perdão: aquela mensagem parada no visualizado há três semanas, porque responder custaria admitir que você também errou. Guarda dinheiro com aquele aperto no peito de quem acha que nunca é suficiente.
Nada disso rende parado. Afeto guardado não vira nada. Perdão guardado azeda. Tempo guardado simplesmente passa.
O caminho que Jesus propõe não é o da perda. É o da entrega, e são coisas diferentes. Perder é ficar sem. Entregar é colocar naquele lugar onde a coisa finalmente pode crescer. Lourenço não perdeu o tesouro da Igreja: ele o plantou em gente. Mil e setecentos anos depois, a gente ainda está falando disso.
O convite de hoje é bem pequeno e bem concreto: escolha uma semente que está parada na sua gaveta e plante ainda hoje. Pode ser a mensagem que você vem adiando, então mande. Pode ser meia hora de telefone com alguém que anda sumido, então ligue, não mande áudio. Pode ser dividir a marmita, pagar o café de quem está atrás na fila, dizer em voz alta o elogio que você só pensou. Escolha uma, e faça antes de dormir.
Vai parecer pouco. Semente sempre parece pouco. Mas é assim que Deus costuma trabalhar: no escuro da terra, sem plateia, transformando o que você soltou em algo que você nem vai ver crescer inteiro.
Que Deus abençoe sua oração.