Tem uma mensagem parada no seu celular. Você escreveu, apagou, escreveu de novo e deixou ali, sem enviar. É para aquela pessoa que te magoou semana passada: o colega que te expôs na reunião, a irmã que falou demais no grupo da família, o amigo que sumiu sem dar explicação. Você não mandou nada para ela. Mas contou o ocorrido para outras três pessoas.
A gente faz isso quase sem perceber. É mais fácil comentar o problema com quem não tem nada a ver do que olhar no olho de quem o causou.
Estamos no Tempo Comum, o tempo verde, aquele em que a Igreja não celebra nenhum grande mistério e justamente por isso olha para o miúdo da vida: como as pessoas convivem, como se ferem, como se reencontram. As leituras de hoje falam exatamente disso.
Ezequiel traz uma visão pesada, cheia de destruição, escrita num momento em que Jerusalém desmoronava. No meio daquela cena dura, porém, há um detalhe que passa quase despercebido. Deus manda o homem vestido de linho atravessar a cidade e "marca com uma cruz na testa os homens que gemem e suspiram por causa de tantos horrores que nela se praticam". Os marcados não são os fortes nem os corretos. São os que ainda sofrem com o que está errado. Quem continua doendo com a injustiça já carrega um sinal de Deus na testa. A indiferença é que seria o verdadeiro fim.
E aí vem Jesus, no Evangelho, com uma instrução de uma clareza desconcertante: "Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão."
Repare na ordem que ele monta. Primeiro a sós. Depois, se não der certo, com uma ou duas pessoas junto. Só em último caso a comunidade inteira. É uma escada que começa no menor barulho possível. Jesus não está ensinando a vencer uma discussão nem a montar um tribunal. O verbo que ele usa é ganhar. O objetivo do encontro difícil não é provar que você tinha razão. É não perder a pessoa.
O contrário disso a gente conhece bem. É o print encaminhado. É a indireta no story. É a reunião em que alguém é corrigido na frente de todo mundo, quando um recado no privado teria resolvido. É o silêncio de meses entre duas pessoas que moram na mesma cidade e continuam se seguindo nas redes sem trocar uma palavra. Nenhuma dessas coisas ganha ninguém. Todas apenas administram a mágoa, mantendo-a viva num fogo baixo.
E então, logo depois de falar de conflito, Jesus diz a frase que a gente costuma ver bordada em quadro de parede: "onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles". Não é uma frase decorativa sobre grupos de oração. Está no contexto de duas pessoas que se desentenderam e decidiram se sentar de novo, frente a frente. É ali, naquele constrangimento de começar a conversa, que Cristo promete estar. No meio, entre os dois, sustentando o que ninguém sustentaria sozinho.
Talvez seja por isso que a Aclamação de hoje lembre que Deus reconciliou consigo a humanidade e entregou a nós essa mesma reconciliação. Ela não ficou guardada no céu. Foi posta na sua mão.
Você não precisa resolver tudo hoje. Mas há uma conversa que está esperando por você, e você sabe qual é.
Hoje, escolha uma pessoa e faça o primeiro degrau: a sós. Uma mensagem direta para ela, sem grupo, sem plateia. Ou uma ligação de dois minutos. Pode começar de um jeito simples: "queria te falar uma coisa, só entre a gente". Não ensaie o discurso perfeito e não entre para vencer. Entre para ganhar de volta alguém que você não quer perder.
Que Deus abençoe sua oração.