Tem uma fila que anda devagar na Basílica de Aparecida. Gente de ônibus fretado que saiu de madrugada do interior de Minas, senhora de chinelo com o terço enrolado no pulso, pai com o filho pequeno nos ombros para ele enxergar melhor. Todos querem chegar perto de uma imagem de barro escuro, com menos de quarenta centímetros. Ninguém ali está pedindo pouco. Cada um carrega uma falta: o emprego, o exame, o filho que se afastou, a casa própria que não sai.
Hoje a Igreja no Brasil celebra a Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira do Brasil. E também é Dia das Crianças, o que combina muito bem com uma festa de mãe.
A história de Aparecida começou com falta também. Em outubro de 1717, três pescadores, Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso, foram mandados ao rio Paraíba do Sul para conseguir peixe para a visita de uma autoridade. O rio estava vazio. Lançaram as redes muitas vezes, e nada. Até que veio um pequeno corpo de imagem, sem cabeça. Depois, a cabeça. Juntaram as duas partes, e só então as redes começaram a vir cheias. Os primeiros devotos de Aparecida foram pescadores pobres, com medo de voltar de mãos vazias.
O Evangelho nos leva a outra festa onde algo faltou. Um casamento em Caná. No meio da comemoração, o vinho acaba. Numa aldeia pequena, isso era vergonha que os noivos carregariam por anos. Ninguém percebeu. Maria percebeu. E foi até o Filho com uma frase simples: "Eles não têm mais vinho".
Ela não faz discurso, não dá solução, não exige nada. Só leva a falta até Jesus. É isso que uma mãe faz. Repara no que ninguém repara e leva para quem pode resolver.
Depois, Maria se volta aos empregados e diz a frase que resume toda a devoção mariana: "Fazei o que ele vos disser". Ela não aponta para si. Aponta para o Filho. Toda imagem de Nossa Senhora, até a pequenina tirada do rio, guarda esse gesto: olhe para Ele.
E o que Jesus pede é quase banal. "Enchei as talhas de água." Água comum, carregada no braço, seis talhas de cem litros. Os empregados obedecem e enchem até a boca. O milagre acontece no meio de um trabalho braçal, repetitivo, sem nenhum brilho. Como o dos pescadores insistindo num rio que não dava peixe.
A primeira leitura mostra Ester diante do rei, arriscando a vida para pedir pelo seu povo: "concede-me a vida", e a vida do meu povo. A tradição vê em Ester uma figura de Maria, a rainha que intercede. Por isso o povo brasileiro, desde 1717, fala com Aparecida sem cerimônia, como quem conversa com a mãe na cozinha. Ela escuta e leva adiante.
Talvez hoje o vinho tenha acabado aí na sua casa. A paciência com o filho adolescente, a esperança no casamento, a força para mais um mês de conta apertada. Você não precisa fingir que está tudo bem. Pode dizer como Maria: não tem mais. E depois fazer a parte que é sua, encher as talhas com a água que você tem, mesmo que pareça pouco.
Hoje, dia da Mãe Aparecida e das crianças, faça duas coisas simples. Diga diante dela, em voz baixa e sem rodeios, a falta que você carrega. E depois pergunte a Jesus qual talha Ele quer que você encha hoje: uma conversa adiada, uma visita, um tempo inteiro de brincadeira no chão com uma criança. Faça o que Ele disser. O melhor vinho costuma chegar depois.
Que Deus abençoe sua oração.