Tem uma dívida que nunca aparece no aplicativo do banco. Não vence no dia dez, ninguém manda boleto, e mesmo assim você sabe o valor exato. É a frase que seu irmão soltou no almoço de domingo há seis anos. É a amiga que sumiu justo na semana em que tudo desabou. É o sócio que saiu levando mais do que era dele.
Você até parou de comentar. Mas se alguém tocar no nome dessa pessoa, o número reaparece na hora, atualizado, com juros. A gente é péssimo em decorar senha e excelente em decorar mágoa.
Estamos no Tempo Comum, o tempo de aprender a fé no meio do ordinário, e hoje a Igreja no Brasil celebra Santa Dulce Lopes Pontes, aquela freirinha de Salvador que abrigava doente em galinheiro porque não tinha outro lugar. Uma mulher que passou a vida recebendo gente que o mundo já tinha descartado.
Pedro chega perto de Jesus com uma pergunta que parece generosa e é, no fundo, uma tentativa de fechar a conta: "Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?" Sete já era muito. Sete era acima da média. Pedro estava esperando um elogio.
Jesus responde: "Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete." Não é matemática, é o fim da matemática. Jesus não está aumentando o limite do cartão, está rasgando a planilha.
E aí vem a história. Um empregado devia ao patrão uma fortuna impossível, dessas que nem trabalhando três vidas se paga. Cai de joelhos, pede prazo, e recebe muito mais que prazo: recebe o perdão inteiro da dívida. Sai dali leve. E a primeira coisa que faz, ainda com a poeira do chão na roupa, é agarrar um colega pelo pescoço por cem moedas.
A pergunta do patrão é a pergunta que fica ecoando: "Não devias tu também, ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?"
A primeira leitura de hoje ilumina isso de um jeito duro. Deus diz a Ezequiel que o povo "tem olhos para ver e não vê, ouvidos para ouvir e não ouve". E manda o profeta fazer algo estranho: arrumar uma bagagem de exilado e sair carregando nas costas, à vista de todos. Um sinal ambulante. Um homem curvado sob o peso de tudo o que insistia em carregar.
É mais ou menos isso que o rancor faz com a gente. Ele não fica guardado num canto quieto da alma. Ele vira bagagem nas costas. Você leva no trânsito, leva na reunião, leva para a cama. Perde o sono por alguém que provavelmente está dormindo muito bem. Sai de casa carregando um exílio que ninguém decretou, só você.
E o mais difícil de admitir é que quase sempre a conta que a gente cobra dos outros é bem menor do que a conta que já foi perdoada da gente. Perdoar não é dizer que não doeu, nem fingir que foi pequeno, nem voltar a confiar cegamente em quem machucou. Perdoar é soltar a alça da mochila. É parar de cobrar juros de uma dívida que você já decidiu que ninguém vai pagar mesmo.
Talvez seja por isso que Santa Dulce cabe tão bem no Evangelho de hoje. Ela não ficou calculando quem merecia entrar. Ela abria a porta e perguntava o nome.
Hoje, escolha uma conta. Uma só, a menor delas, aquela mágoa média que você carrega quase por hábito. Diga o nome dessa pessoa em voz alta numa oração de dez segundos e peça a Deus alguma coisa boa para ela, ainda que sem vontade nenhuma. Se der, mande uma mensagem curta, sem cobrança, sem indireta: um "oi, lembrei de você hoje".
E se não der para mandar nada, tudo bem. Só não carregue essa mochila até amanhã.
Que Deus abençoe sua oração.