Quando chega uma notícia boa de verdade, a gente não consegue ficar parado. Pega o celular, chama alguém, atravessa a cidade num domingo de trânsito. Existe uma inquietação boa que nasce da alegria: ela não cabe dentro da gente sozinha, precisa de outra pessoa para caber.
Hoje o Tempo Comum abre uma clareira e a Igreja celebra a Solenidade da Assunção de Maria. É a festa do fim da história dela, mas o Evangelho escolhido nos leva de volta ao começo: uma jovem de Nazaré subindo uma serra.
"Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia." Repare no detalhe. Ela acabou de receber o anúncio mais desconcertante que alguém já ouviu, está grávida, tem todos os motivos do mundo para se recolher e cuidar de si. E o que faz? Vai ver a prima idosa que também está esperando um filho. A pressa dela não é de fuga. É de encontro.
Isabel percebe na hora. "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!", ela grita, e completa com algo ainda mais bonito: "Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu." Não é a barriga que Isabel elogia primeiro. É a confiança.
E aí Maria canta. O Magnificat não é uma canção de ninar. É um texto com músculo: "Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias." A moça que quase ninguém conhecia entendeu que Deus trabalha de baixo para cima. Que Ele começa pelas pessoas que o mundo colocaria no fim da fila.
A Assunção é exatamente isso levado até o fim. Maria não conquistou um lugar no céu por currículo espiritual. Ela foi elevada porque disse sim, porque acreditou, porque atravessou a vida inteira carregando uma promessa que muitas vezes não fez sentido nenhum. Aos pés da cruz, aquele cântico devia parecer uma piada cruel. E ainda assim a promessa se cumpriu.
Paulo diz para os Coríntios uma frase que a gente devia guardar no bolso: "O último inimigo a ser destruído é a morte." Último. Ou seja, ela ainda anda por aí, ainda dói, ainda leva gente que a gente ama. Mas ela tem prazo. A Assunção é o primeiro sinal público de que esse prazo é real. O que aconteceu com Maria é a legenda do que Deus quer fazer com você.
Só que nada disso começa no céu. Começa numa estrada de serra, com uma mulher grávida indo cuidar de outra mulher grávida.
Pense em quem está esperando alguma coisa perto de você agora. A colega que está segurando um diagnóstico e só falou disso uma vez, de passagem. O amigo que sumiu do grupo depois do divórcio. A tia que liga sempre e você sempre promete retornar depois. A vizinha que enterrou o marido em maio e desde então a casa dela ficou silenciosa demais.
A gente costuma adiar essas visitas porque acha que precisa chegar com uma solução. Maria não levou solução nenhuma. Levou presença, e ficou três meses. Às vezes é isso que falta: alguém que apareça sem ter o que resolver.
Hoje, escolha uma pessoa e vá até ela. Se der, vá pessoalmente, toque a campainha, leve um pão. Se a distância não permitir, faça uma chamada de vídeo de verdade, não uma mensagem de texto que você digita enquanto faz outra coisa. E quando estiver lá, comece por uma pergunta simples: "como você está, mesmo?" Depois fique calado e escute até o fim.
A alegria que Deus coloca na gente tem esse jeito estranho de só ficar completa quando encontra outro rosto. Suba a sua serra hoje. Tem alguém do outro lado esperando ouvir a sua voz.
Que Deus abençoe sua oração.