Sexta-feira, fim de tarde, barbearia do bairro. O Marcos senta na cadeira, pede o corte de sempre e passa os primeiros minutos no celular, rolando o grupo da empresa. Segunda tem reunião com a diretoria, e os boatos de corte de pessoal já estão circulando. O barbeiro, que conhece a cabeça dele há dez anos, passa o pente e comenta, sem maldade: "Tá caindo mais cabelo aqui atrás, hein. Isso é nervoso". O Marcos ri, desconversa, diz que está tudo ótimo. Mas guarda o celular e fica olhando para o chão, onde os fios vão se juntando.
Quem já passou por uma semana assim sabe: o medo mora no corpo antes de chegar às palavras.
Encerramos a 28ª semana do Tempo Comum com um Evangelho que junta duas coisas que parecem distantes. Jesus está no meio de uma multidão tão grande que "uns pisavam os outros", e começa alertando os discípulos: "Tomai cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia". Logo depois, no mesmo fôlego, ele diz: "Não tenhais medo!"
Por que Jesus coloca essas duas frases lado a lado? Talvez porque uma nasce da outra. A hipocrisia quase nunca começa como mentira calculada. Começa como medo. Medo de não ser aceito, de perder o lugar, de ser visto como fraco. Aí a gente sorri quando está desmoronando, concorda com o que não acredita, esconde o que sente. Como fermento, é pouca coisa no começo. Mas vai crescendo até ocupar a massa inteira, e um dia a gente já nem sabe mais qual é o próprio rosto.
Jesus não responde a isso com uma bronca. Responde com uma imagem de ternura quase inacreditável: "Não se vendem cinco pardais por uma pequena quantia? No entanto, nenhum deles é esquecido por Deus. Até mesmo os cabelos de vossa cabeça estão todos contados".
Pense nisso por um instante, com o Marcos na cadeira do barbeiro. Os fios que caem de preocupação, os que o barbeiro varre para o canto no fim do dia, nenhum passa despercebido. Se Deus conhece cada fio, conhece também o medo que ninguém mais vê. E quem se sabe conhecido assim não precisa fingir. Pode dizer "estou com medo" sem vergonha, porque o olhar que importa já sabe e não foi embora.
São Paulo, na primeira leitura, diz aos efésios que eles foram "marcados com o selo do Espírito prometido". Selo é marca de pertença. Não é crachá que se perde na próxima reestruturação. É uma assinatura de Deus que nenhuma reunião de segunda-feira pode apagar. O Salmo completa: "Dos altos céus o Senhor olha e observa; ele se inclina para olhar todos os homens". Deus se inclina. Como o barbeiro que chega perto para ver melhor.
Isso não significa que as ameaças deixam de existir. O emprego pode estar em risco, o exame pode dar alterado, a conversa difícil ainda vai acontecer. Jesus não promete uma vida sem sustos. Promete que, no meio deles, você não é esquecido. E essa certeza vai tirando espaço do fermento. Quando o medo diminui, a máscara fica pesada demais, e a gente descobre que dá para ser verdadeiro.
Talvez hoje você esteja segurando uma pose em algum lugar. No trabalho, fingindo segurança. Em casa, dizendo que está tudo bem. Até na oração, falando com Deus do jeito que acha que ele quer ouvir, e não do jeito que você realmente está.
O convite de hoje começa no espelho. Quando for se arrumar, pare alguns segundos, olhe para o seu cabelo e lembre: cada fio está contado. Depois diga a Deus, com suas palavras, o medo que você tem carregado esta semana. Sem enfeite. E, se tiver coragem, conte a mesma coisa a uma pessoa de confiança. O que é dito à luz do dia pesa bem menos.
Que Deus abençoe sua oração.