Você está parado no semáforo da Marginal, sozinho no carro, falando em voz alta. Ensaia a conversa que vai ter daqui a meia hora: com o chefe, com o filho adolescente, com a irmã com quem você não fala direito desde o inventário da mãe. Monta frase por frase, prevê a resposta do outro, prepara a réplica. Chega lá, e nada sai como no ensaio. O outro diz uma coisa que não estava no roteiro, e você fica ali, sem fala.
A gente gosta de roteiro. Roteiro dá sensação de controle. E quando o assunto é fé, a vontade de ter tudo decorado aumenta: o que responder se alguém perguntar por que você ainda vai à missa, como explicar que reza, o que dizer quando o colega faz piada sobre padre na roda do café.
Hoje a Igreja celebra a memória de Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir, e o vermelho no altar lembra o sangue de quem não negou o nome de Jesus. Inácio foi preso na Síria e levado a Roma escoltado por soldados, no início do século II. No caminho, sem biblioteca, sem tempo, sem escrivaninha, escreveu sete cartas às comunidades por onde passava. Não eram tratados revisados com calma. Eram palavras de quem estava a caminho, dizendo só o essencial. Numa delas escreveu: "Sou trigo de Deus". Quase dois mil anos depois, a gente ainda lê essas cartas.
No Evangelho, Jesus fala exatamente disso: "Quando vos conduzirem diante das sinagogas, magistrados e autoridades, não fiqueis preocupados como ou com que vos defendereis, ou com o que direis. Pois nessa hora o Espírito Santo vos ensinará o que deveis dizer."
Repare que Jesus não promete que a hora vai ser fácil. Ele promete que você não vai estar sozinho nela. O testemunho não é um discurso que você decora em casa e recita no momento certo. É uma presença que fala junto com você quando o momento chega. Não é que a sua preparação não conte. É que não é ela que sustenta.
Paulo, na primeira leitura, pede para os efésios algo parecido: que Deus "abra o vosso coração à sua luz". Ele não pede que fiquem mais eloquentes. Pede que enxerguem melhor. Quem enxerga não precisa de tanto roteiro.
Isso muda muita coisa no dia a dia. Talvez você tenha deixado de falar da sua fé porque achava que não saberia responder às perguntas difíceis. Não sabe explicar a Trindade, não domina os argumentos, tem medo de passar vergonha. Só que ninguém pediu que você fosse professor de teologia no almoço da firma. O testemunho que Jesus pede cabe numa frase simples: "Eu rezo por isso." "Domingo não dá, tenho missa." "Posso rezar por você?"
E às vezes o testemunho nem tem palavra. É o jeito como você trata o garçom quando ninguém está olhando. É não repassar a fofoca no grupo do condomínio. É continuar tratando bem a sua irmã, mesmo depois de tudo o que se falou naquele inventário.
Inácio não tinha roteiro. Tinha uma certeza: a de que pertencia a Cristo. E foi dessa certeza, não de um texto preparado, que saíram as palavras que atravessaram os séculos. O mesmo Espírito que ditou aquelas cartas na estrada continua disponível para você, no semáforo, na reunião, no almoço de domingo.
Hoje, quando surgir uma chance pequena de mostrar de quem você é, não fuja por medo de não saber o que dizer. Diga uma frase simples, verdadeira, sem ensaio. Antes de abrir a boca, peça em silêncio: "Espírito Santo, fala comigo." E confie que a palavra vem na hora.
Que Deus abençoe sua oração.