A máquina da lojinha de fotos ao lado do Poupatempo dispara o flash, e você já sabe que vai odiar o resultado. Olhos meio fechados, cabelo fora do lugar, aquela cara de quem está sendo fichado. Dez anos com essa foto no RG. E mesmo assim é ela que diz ao mundo quem você é: na portaria do prédio, no banco, no embarque do avião. Um rosto e um nome. É isso que um documento carrega.
Neste 29º Domingo do Tempo Comum, o Evangelho coloca uma moeda na mão de Jesus. Os fariseus armaram o laço com cuidado. Mandaram gente que começou com elogio, "sabemos que és verdadeiro", e depois soltou a pergunta: "É lícito ou não pagar imposto a César?" Se Jesus dissesse sim, ficaria mal com o povo, que detestava o domínio romano. Se dissesse não, seria denunciado como rebelde.
Jesus não entra na armadilha. Pede a moeda e devolve outra pergunta: "De quem é a figura e a inscrição desta moeda?" A resposta é óbvia: de César. O rosto do imperador estava cunhado ali, com o nome dele gravado em volta. Então Jesus diz a frase que a gente repete até hoje: "Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus."
A primeira metade da resposta é simples. A moeda tem a cara de César, que volte para César. Mas a segunda metade fica no ar, esperando que cada um complete. O que é que tem a imagem de Deus? Quem ouvia Jesus sabia de cor, desde as primeiras páginas da Bíblia: o ser humano. Fomos feitos à imagem e semelhança de Deus. A figura cunhada em você não é a de nenhum imperador.
A primeira leitura vai na mesma direção por um caminho curioso. Deus fala de Ciro, um rei estrangeiro que nem o conhecia, e diz: "Chamei-te pelo nome; reservei-te, e não me reconheceste." Até quem não sabe de quem é carrega a marca de quem o chamou. O nome vem antes do reconhecimento.
Pense em quanta coisa hoje disputa o seu rosto. O trabalho quer que você seja o cargo. As redes querem que você seja o perfil, com a foto no melhor ângulo. A família às vezes quer que você continue sendo o papel que te deram lá atrás: o responsável, o problemático, o que deu certo. Tudo isso tem um lugar legítimo, como César tinha o dele. Pagar imposto, cumprir horário, cuidar da imagem profissional, nada disso afasta você de Deus. O problema começa quando a gente entrega a César aquilo que tem a figura de Deus.
Porque há coisas em você que não pertencem ao chefe, nem ao algoritmo, nem à expectativa de ninguém. O seu descanso de domingo. A sua consciência. O jeito como você olha para o seu filho. A sua dignidade no dia em que o projeto dá errado. Tudo isso tem outra inscrição.
Paulo escreve aos tessalonicenses lembrando que o Evangelho chegou até eles "não somente por meio de palavras, mas também mediante a força que é o Espírito Santo". A imagem de Deus em você não é uma ideia bonita para citar em cartão. É uma força que sustenta quando os outros rótulos pesam demais e a foto do documento parece dizer tudo o que você é.
Hoje, quando passar por um espelho, pare dois segundos. Não para conferir o cabelo, mas para lembrar de quem é o rosto que está ali. Depois escolha uma coisa que você anda entregando a César e que pertence a Deus, talvez a hora do domingo que foi engolida pelo e-mail do trabalho, e devolva a quem ela pertence.
Que Deus abençoe sua oração.