Tem um tipo de espera que cansa mais que trabalho. É a espera de quem manda currículo e não recebe resposta. De quem fica no grupo do WhatsApp vendo todo mundo combinar coisa que ele não foi convidado. De quem chega aos cinquenta e sente que o mundo já escalou o time sem ele. Não é preguiça. É aquele silêncio esquisito de estar disponível e ninguém precisar de você.
Estamos no Tempo Comum, o tempo verde, o tempo do cotidiano. É justamente aqui, no meio do calendário sem festa grande, que a liturgia de hoje coloca duas imagens que se completam: um Deus que sai à procura e um patrão que não para de voltar à praça.
A primeira leitura é dura com quem tinha a função de cuidar. Ezequiel denuncia os pastores que engordaram enquanto o rebanho se espalhava. E aí, no meio da bronca, aparece a virada mais bonita do texto: "Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas e tomar conta delas". Quando a estrutura falha, Deus não terceiriza de novo. Ele desce, entra no mato e vai atrás pessoalmente. O Salmo responde com aquela frase que a gente reza de cor sem sempre acreditar: "O Senhor é o pastor que me conduz, não me falta coisa alguma."
No Evangelho, esse Deus que procura ganha rosto de patrão inquieto. Ele sai de madrugada, sai às nove, sai ao meio-dia, sai às três. E às cinco da tarde, quando o expediente já está acabando e não faz mais sentido econômico nenhum contratar ninguém, ele sai de novo. Encontra gente parada e pergunta: "Por que estais aí o dia inteiro desocupados?" A resposta é de partir o coração: "Porque ninguém nos contratou."
Repare que eles não estavam se escondendo. Estavam na praça, à vista, o dia inteiro. O problema nunca foi falta de vontade de trabalhar. Foi falta de alguém que olhasse.
Por isso a diária inteira no fim do dia não é um erro de contabilidade. É a resposta de um patrão que sabe o que aquela pessoa carregou o dia todo: a humilhação de ser preterida, a conta que não ia fechar, a volta para casa sem nada. Ele não paga por hora produzida. Paga o que é preciso para essa família comer hoje.
E é aqui que o texto encosta na gente. Porque a reclamação dos primeiros é honesta demais para a gente fingir que não entende: "Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós." Quem nunca fez essa conta? A pessoa que reza desde criança e vê alguém se converter aos setenta anos e ser recebido com festa. Quem segurou o casamento no braço e assiste ao amigo recomeçar e ser feliz. Quem carregou a empresa por dez anos e vê o novato ser promovido. A dor não é mentira. Mas ela nasce de uma ideia: a de que Deus é um sistema de pontos, e que o amor que sobra para o outro vai faltar para mim.
Não vai. O patrão chama o reclamante de "amigo". Não o expulsa, não o humilha. Só desmonta a conta: você recebeu tudo o que precisava. O que incomoda não é ter sido lesado. É ver que a bondade não obedece à nossa régua.
Talvez hoje você esteja de um lado ou do outro. Se você é o das cinco da tarde, o que chegou tarde na fé, na vida arrumada, na segunda chance, saiba disto: o dono da vinha voltou à praça por sua causa, quando ninguém mais voltaria. Se você é o da madrugada, cansado e meio ressentido, a boa notícia é que sua diária está garantida desde sempre, e você pode largar a calculadora.
Um convite para hoje: pense em alguém que está na praça esperando ser chamado. O colega que ficou de fora do projeto. O parente desempregado que ninguém mais pergunta como está. A pessoa da sua comunidade que sumiu e todo mundo comentou, mas ninguém procurou. Escolha uma. Mande uma mensagem hoje, ainda hoje, com um convite concreto: um café, uma indicação, um "vem almoçar aqui domingo". Não precisa resolver a vida dela. Basta que ela não termine mais um dia dizendo que ninguém a chamou.
Que Deus abençoe sua oração.