Toda casa tem um. Pode ser o quartinho dos fundos, o maleiro do guarda-roupa, a garagem onde o carro já não cabe. Lá dentro: a bicicleta ergométrica que virou cabide, caixas de mudança fechadas há três anos, o micro-ondas quebrado "que dá pra consertar", sacolas guardando sacolas. A gente jura que vai arrumar no feriado. O feriado passa. E quando o espaço acaba, a solução quase nunca é esvaziar. É arrumar mais espaço: um armário novo, uma prateleira na área de serviço, às vezes até um box alugado num guarda-móveis.
Estamos na 29ª semana do Tempo Comum, e Lucas conta a história de um homem que teve exatamente essa ideia. A colheita foi grande demais. Ele pensa: "O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita." E decide: "Vou derrubar meus celeiros e construir maiores." Tudo parece sensato. É planejamento, é prudência, é o que qualquer consultor recomendaria.
Até que Deus interrompe o planejamento com uma palavra dura: "Louco! Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?"
Jesus não está condenando quem colhe bem, nem quem guarda para o futuro. A cena começa com alguém pedindo que ele resolva uma briga de herança entre irmãos, e Jesus recusa o papel de juiz. Em vez disso, aponta o que está por baixo da briga: "a vida de um homem não consiste na abundância de bens". O homem da parábola não erra por ter muito. Erra porque a única conversa que ele tem é consigo mesmo. "Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos." Ninguém mais aparece na história. Nem família, nem vizinho, nem Deus. Só ele e os celeiros.
No fundo, o celeiro maior é uma tentativa de comprar sossego. O homem queria finalmente poder dizer a si mesmo: descansa, come, bebe, aproveita. Não há nada de errado em querer descanso. O engano é achar que ele mora no depósito. O descanso que ele procurava estava numa mesa partilhada, que ele nunca pensou em pôr.
A primeira leitura oferece o contraponto. Paulo lembra aos efésios que o que eles têm de mais precioso chegou de graça: "é pela graça que sois salvos, mediante a fé. E isso não vem de vós; é dom de Deus!" O salmo repete: "Ele mesmo nos fez, e somos seus." Se até a vida é presente, o que exatamente a gente está trancando no quartinho?
Porque o quartinho de bagunça não guarda só objetos. Tem gente que acumula mágoa do mesmo jeito: empilha, fecha a porta, promete que um dia resolve. Tem gente que acumula tempo, adiando a visita à mãe para quando a agenda folgar, guardando o domingo com os filhos para depois da promoção. Tem gente que acumula até talento, com medo de usar e dar errado. Tudo guardado, tudo seguro, tudo parado.
Ser "rico diante de Deus", como Jesus diz no final, talvez seja o contrário disso. É deixar as coisas circularem. A roupa que não serve mais vestir outra pessoa. O perdão que você está segurando chegar a quem precisa ouvir. A hora livre virar uma ligação de verdade. Riqueza que circula não precisa de celeiro.
E existe uma leveza enorme nisso. Quem já esvaziou um quarto de bagunça sabe: o espaço que aparece é quase físico no peito. Dá para respirar de novo.
Hoje, abra uma gaveta, só uma, daquelas que você evita. Escolha uma coisa que está ali parada e que faria falta para alguém, separe agora e entregue até o fim da semana. Enquanto faz isso, pergunte baixinho: o que mais em mim está guardado demais?
Que Deus abençoe sua oração.