Quase todo mundo guarda a memória da escolha de times no recreio. Dois capitães, a turma inteira em pé, e aquele momento em que os nomes vão sendo chamados. Primeiro os melhores. Depois os medianos. E, no fim, sobram dois ou três que ficam olhando para o chão, torcendo para o sinal tocar antes da humilhação de serem o último. O medo ali nunca foi perder o jogo. Era não ser chamado.
Neste 25º Domingo do Tempo Comum, Jesus conta uma história que começa exatamente nesse ponto: gente parada, esperando alguém dizer seu nome.
Um patrão sai de madrugada e contrata trabalhadores para a vinha. Poderia ter acabado ali. Mas ele sai de novo às nove. Depois ao meio-dia. Depois às três. E, incrivelmente, sai outra vez às cinco da tarde, quando o expediente está praticamente encerrado e não faz sentido nenhum contratar ninguém. Encontra homens parados e pergunta por quê. A resposta é das frases mais tristes do Evangelho: "Porque ninguém nos contratou."
Repare no que essa frase revela. Eles não estavam ali por preguiça. Estavam ali o dia inteiro, em pé, vendo os outros irem trabalhar, ensaiando como iriam chegar em casa sem nada. É a cena de quem espera a van da obra que não para, de quem manda o currículo pela quadragésima vez, de quem envelheceu esperando uma chance que nunca veio.
E o detalhe que muda tudo: o patrão voltou. Cinco vezes. Ele não foi uma única vez à praça e concluiu que quem sobrou não prestava. Ele insistiu na praça.
Essa é a imagem que a parábola coloca na sua frente hoje. Não a de um Deus que faz seleção e fecha as inscrições, mas a de alguém que continua saindo pela porta para procurar quem ainda não foi encontrado. Isaías já dizia: "Buscai o Senhor, enquanto pode ser achado; invocai-o, enquanto ele está perto." Perto. Não distante, não inacessível. Perto como alguém que já está atravessando a praça na sua direção.
No fim do dia, os que foram contratados de manhã recebem o mesmo que os das cinco da tarde e reclamam. É uma reclamação compreensível, humana, quase inevitável. Mas ela nasce de um mal-entendido: eles acharam que estavam num concurso, e o patrão estava fazendo outra coisa. "Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti", ele responde. Não é um erro do sistema. É o coração dele.
Talvez você se reconheça mais nos das cinco da tarde do que nos de madrugada. Gente que voltou a rezar depois de vinte anos. Gente que se afastou por causa de uma mágoa antiga na comunidade. Gente que acha que já queimou tempo demais, que a fé é coisa para quem começou cedo e manteve a régua certa. A parábola desmonta essa ideia com uma delicadeza enorme: o patrão chegou às cinco e disse "ide vós também". Não perguntou onde a pessoa esteve o dia todo.
Paulo escreve aos filipenses de dentro de uma prisão, sem saber se sairia vivo. Ele poderia se lamentar pelo tempo perdido, pela missão interrompida. Em vez disso, aponta para o essencial: "Só uma coisa importa: vivei à altura do Evangelho de Cristo." Não importa a que horas você entrou na vinha. Importa que você entrou.
Hoje, faça duas coisas pequenas. Primeiro, pense em alguém que você já considerou caso encerrado, aquele parente ou amigo que "não tem mais jeito" de voltar. Mande uma mensagem simples convidando para um café, uma missa, uma conversa. Seja você a pessoa que volta à praça.
E se quem está parado na praça é você, não espere a hora certa. Já são cinco da tarde e o convite continua de pé.
Que Deus abençoe sua oração.