Uma e meia da manhã, e a lâmpada da varanda continua acesa numa casa de Campo Grande. Lá dentro, dona Cida cochila no sofá com a TV ligada sem som e o celular no peito. O neto foi a um casamento no interior e avisou que voltava "tarde". Ela não precisava esperar acordada. Ele tem chave, tem vinte e seis anos, sabe o caminho. Mas ela espera. Porque a luz acesa diz uma coisa que nenhuma mensagem de "chegou bem?" consegue dizer: aqui tem alguém esperando você.
Estamos na 29ª semana do Tempo Comum, e Jesus conta uma cena muito parecida. Um senhor saiu para uma festa de casamento, e os empregados ficam de prontidão para abrir a porta assim que ele bater. "Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas", diz Jesus. Cingir os rins era amarrar a túnica na cintura para poder se mexer rápido, como quem arregaça as mangas. Lâmpada acesa, naquela época, era óleo queimando a noite inteira e alguém atento para reabastecer.
Até aqui, parece um conselho sobre vigilância. Mas a história tem uma virada que ninguém esperaria. O senhor chega, encontra todos acordados, e então: "Ele mesmo vai cingir-se, fazê-los sentar-se à mesa e, passando, os servirá." O patrão amarra o avental e serve o jantar aos empregados. Às três da madrugada. Depois de uma festa.
Quem ouvia Jesus deve ter estranhado. Imagine o dono de uma empresa saindo da festa de fim de ano e indo direto para a cozinha lavar a louça dos garçons. Não era assim que as coisas funcionavam. Mas é assim que funciona com Deus. A espera não é a de um empregado com medo de levar bronca. É a de quem está sendo preparado para sentar à mesa como família.
Paulo diz isso com todas as letras na primeira leitura: "já não sois mais estrangeiros nem migrantes, mas concidadãos dos santos. Sois da família de Deus." Cristo, escreve ele, derrubou "o muro de separação". Não existe mais a divisão entre quem serve na cozinha e quem come na sala. O Senhor que volta faz questão de juntar todo mundo na mesma mesa, e de servir ele mesmo.
Então, o que significa manter a lâmpada acesa hoje, numa terça-feira qualquer? Não é passar a noite em claro, nem viver em estado de alerta. É não deixar a fé virar lâmpada queimada que ninguém troca. É a oração curta antes de sair de casa, mesmo com pressa. É o terço rezado no ônibus. É a atenção ao colega que chegou calado, ao filho que respondeu seco, à mensagem do amigo que sumiu há meses. Cada gesto desses é um pouco de óleo na lamparina.
E vale lembrar: dona Cida não espera o neto porque desconfia dele. Espera porque o ama. A vigilância que Jesus pede nasce do mesmo lugar. Não é tensão, é saudade. É a casa de quem sabe que alguém querido vai chegar e quer que ele encontre a porta pronta para abrir.
Talvez a sua lâmpada esteja fraca. Talvez faça tempo que você não reza de verdade, ou a fé tenha virado só costume. Não tem problema recomeçar pelo pouco. O Senhor que chega de madrugada não vem inspecionar o óleo. Vem trazer comida.
Hoje, escolha um momento fixo, pode ser a hora de acender a luz de casa quando anoitece, para fazer uma oração de um minuto. Quando apertar o interruptor, diga por dentro: "Estou aqui, Senhor. Pode bater."
Que Deus abençoe sua oração.