Tem dias em que a gente se sente disperso. Como se a vida fosse empurrando a gente para lugares que não escolhemos — uma mudança de emprego, um relacionamento que acabou, uma cidade nova, um luto que ainda dói. E no meio de tudo isso, uma pergunta silenciosa vai surgindo dentro da gente: será que alguém me vê? Será que alguém se importa com o que está acontecendo comigo?
É exatamente nesse ponto que o Evangelho de hoje nos alcança.
Jesus diz algo que, quando a gente para para ouvir de verdade, é quase impossível não se emocionar: "Todos os que o Pai me confia virão a mim, e quando vierem, não os afastarei." E mais ainda: "Esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu."
Nenhum. Nem um sequer.
Você não é um número na multidão. Você não é um caso perdido que Jesus vai olhar de longe e decidir que não vale a pena. A vontade de Deus — e Jesus deixa isso claro como água — é que você chegue até o fim. Que você seja ressuscitado no último dia. Que a sua vida, toda ela, seja guardada.
A Primeira Leitura nos ajuda a entender isso de um jeito bem concreto. A Igreja vivia um momento de terror. Saulo perseguia os cristãos, invadia casas, jogava gente na prisão. Era o caos, o medo, a dispersão. Parecia que tudo estava desmoronando. Mas o que aconteceu com os que foram espalhados? Eles foram "por toda parte, pregando a Palavra". Filipe chegou à Samaria — um lugar que os judeus desprezavam — e o que encontrou lá foi cura, libertação e alegria. "Era grande a alegria naquela cidade."
A dispersão que parecia destruição virou missão. O que parecia perda virou presença.
Esse é um padrão que Deus repete. Na Páscoa que estamos celebrando, isso está no centro de tudo: o que parecia a derrota definitiva — a morte de Jesus — foi o momento em que a vida irrompeu de vez. O Tempo Pascal é exatamente esse convite para olhar para os nossos próprios "sepulcros" — as situações sem saída, os projetos enterrados, os relacionamentos que pareciam mortos — e perguntar: será que Deus não está fazendo algo aqui que eu ainda não consigo ver?
A gente vive num Brasil de gente apressada, com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. É fácil ir perdendo o fio. A reunião que não deu certo, o filho que foi embora de casa, o diagnóstico que mudou tudo, a solidão que aparece até no meio da festa. E em algum momento, quase sem perceber, a gente começa a achar que talvez Deus também tenha perdido o fio — que talvez a gente também tenha ficado para trás.
Jesus diz que não. Que isso não é possível. Que a vontade do Pai é que nenhum se perca. Que ele é o pão da vida — não o pão da ocasião especial, não o pão de domingo, mas o pão de cada dia, o que sustenta quando não tem mais nada.
Então o convite para hoje é simples e direto.
Escolha um momento do dia — pode ser no café da manhã, no trânsito, antes de dormir — e diga em voz alta ou só por dentro, com a sua própria linguagem: "Senhor, eu acredito que você não me perde de vista." Não precisa ser uma oração longa. Não precisa ter o tom certo. É só deixar essa verdade pousar em você: você está nas mãos de quem não deixa ninguém para trás.
E se alguém ao seu redor estiver se sentindo disperso hoje, perdido ou esquecido, talvez seja você que vai chegar até essa pessoa — como Filipe chegou à Samaria — e fazer a alegria aparecer naquele lugar.
Que Deus abençoe sua oração.