Já reparou como, num dia de calor daqueles, a gente enche a garrafa na torneira, guarda na bolsa, e horas depois abre pra beber e a água está morna, com gosto de plástico? Mata a sede na marra, mas não é a mesma coisa que aquela água gelada da fonte, aquela que desce e parece lavar por dentro. A gente se contenta com o morno tantas vezes.
É mais ou menos disso que Deus reclama hoje, com uma ternura que dói. Na primeira leitura, Ele não começa brigando. Começa lembrando de um tempo bom: "Lembro-me de ti, da afeição da jovem, do amor da noiva, de quando me seguias no deserto". É Deus falando como quem guarda no coração o começo de um namoro. E então vem a queixa, e é uma imagem que fica grudada na gente: "Dois pecados cometeu meu povo: abandonou-me a mim, fonte de água viva, e preferiu cavar cisternas, cisternas defeituosas que não podem reter água" (Jr 2,13).
Pensa no trabalho que dá cavar uma cisterna. Você quebra a terra, tira pedra, sua, se machuca. E no fim ela racha e a água escorre toda. Enquanto isso, do lado, tinha uma fonte jorrando de graça. É esse o retrato de tantas correrias nossas: a gente se esfalfa atrás de coisas que não seguram a sede, e deixa passar a água viva que estava ali o tempo todo, disponível, gratuita.
Neste Tempo Comum, esse verde que atravessa o ano longe das grandes festas, a liturgia insiste justamente nisso: aprender a reconhecer Deus no meio do dia normal. Não é à toa que o Evangelho de hoje fala de olhos e ouvidos. Jesus explica por que ensina em parábolas e diz uma frase linda para quem está perto dele: "Felizes vocês, porque seus olhos veem e seus ouvidos ouvem" (Mt 13,16). O problema nunca foi Deus se esconder. O problema é a gente andar com o coração meio anestesiado, olhando sem ver, ouvindo sem escutar.
E aqui não tem dedo apontado, tem convite. Ver e ouvir não é privilégio de gente especial, de quem estudou muito ou reza há quarenta anos. Jesus diz que essas coisas foram reveladas aos pequeninos. Ou seja: é para você, do jeito que você está hoje, cansado ou distraído, com a garrafa de água morna na bolsa. A fonte continua jorrando. O salmo canta isso quase sem fôlego: "Em vós está a fonte da vida, e em vossa luz contemplamos a luz". Não é preciso merecer. É preciso chegar perto e beber.
Talvez o convite de hoje seja só parar de cavar por um instante. Reconhecer, sem culpa, uma dessas cisternas furadas que você anda escavando: uma preocupação que rouba seu sono, uma pressa que não deixa você viver, uma busca por aprovação que nunca enche. Nomear isso já é começar a enxergar.
Então aqui vai o convite prático para hoje. Antes de dormir, sente-se um minuto, sem celular na mão, e faça duas coisas simples. Primeiro, agradeça por uma coisa boa que seus olhos viram hoje e que você quase deixou passar batido: o sorriso de alguém, o céu no fim da tarde, um problema que se resolveu. Foi a fonte jorrando, e você viu. Segundo, beba um copo de água devagar, prestando atenção, e enquanto bebe, diga baixinho a Deus: "Hoje eu escolho a tua fonte". Um gesto pequeno, do tamanho do Tempo Comum, mas que treina o coração a reconhecer de onde vem a água que de fato mata a sede.
Que Deus abençoe sua oração.