Existe um instante constrangedor em toda entrevista de emprego: a pessoa do outro lado olha o seu currículo, lê o nome do bairro, o nome da escola, e você percebe uma pequena mudança no rosto dela. Não é maldade. É automático. A gente julga a origem antes de olhar para o conteúdo. Todo mundo já fez isso com alguém, e todo mundo já sentiu isso na pele.
Hoje a Igreja celebra a festa de São Bartolomeu, apóstolo. Estamos no Tempo Comum, mas o vermelho dos paramentos interrompe o verde para lembrar de quem entregou a vida inteira. E o detalhe bonito é este: a primeira frase registrada desse futuro apóstolo, conhecido no Evangelho de João como Natanael, não é uma profissão de fé. É um preconceito.
Filipe chega animado, dizendo que encontrou aquele de quem Moisés escreveu na Lei. E Natanael devolve: "De Nazaré pode sair coisa boa?" Nazaré era um vilarejo pequeno, sem tradição, sem currículo. Natanael não estava sendo cruel. Estava sendo realista, do mesmo jeito que a gente é realista quando descarta uma possibilidade antes de olhar direito para ela.
Filipe não discute. Não monta argumento, não cita profecia, não tenta convencer. Diz duas palavras: "Vem ver."
E quando Natanael se aproxima, acontece o que muda tudo. Jesus olha para ele e diz: "Antes que Filipe te chamasse, enquanto estavas debaixo da figueira, eu te vi." Repare na ordem das coisas. Antes do convite, antes da conversa, antes de qualquer mérito, houve um olhar. Natanael estava sozinho debaixo de uma árvore, num lugar que ninguém filmou, num momento que ninguém aplaudiu. E foi exatamente ali que ele já era conhecido.
A primeira leitura, do Apocalipse, mostra a cidade santa descendo do céu com doze alicerces, e sobre eles "estavam escritos os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro". Um deles é o nome desse homem que começou duvidando. Deus constrói o definitivo com gente que teve um mau começo. Isso não é detalhe. É o método.
Talvez você conheça bem os dois lados dessa cena. Tem o lado Natanael: aquela pessoa do trabalho que você já classificou, o parente que você acha que não muda, a igreja que te decepcionou uma vez e virou assunto encerrado. A gente fecha o julgamento cedo e economiza o esforço de olhar de novo.
E tem o outro lado, o de quem é Nazaré na história dos outros. A sensação de ser o menos notado da sala. De postar e ninguém ver. De cuidar da casa, dos filhos, dos pais idosos, e sentir que nada disso conta em lugar nenhum. É para esse lado que a frase de Jesus chega como água: alguém já tinha te visto debaixo da sua figueira. No hospital, na madrugada em claro, no ônibus voltando cansado. Ninguém precisou te apresentar.
Jesus ainda promete: "Coisas maiores que esta verás." Quem se descobre visto começa a enxergar melhor. É assim que Natanael vira Bartolomeu, apóstolo, um dos alicerces da cidade que desce do céu.
Hoje, faça duas coisas pequenas. Primeira: escolha uma pessoa que você já classificou e dê a ela uma chance real de te surpreender. Puxe conversa, pergunte algo que você nunca perguntou, ouça até o fim sem preparar a resposta. Segunda: separe cinco minutos sem celular, sozinho, num canto qualquer da casa. Essa é a sua figueira. Não precisa dizer nada bonito. Basta ficar ali sabendo que você já foi visto muito antes de ser chamado.
Que Deus abençoe sua oração.