Você já reparou como a gente gasta energia fugindo das perguntas que importam? No trabalho, inventamos desculpas antes mesmo de alguém pedir. Em casa, mudamos de assunto quando a conversa aperta. No celular, rolamos o feed para não ter que ouvir o silêncio. A gente tem medo de ser encontrado — porque ser encontrado exige resposta.
Hoje a Igreja celebra a Anunciação do Senhor, uma solenidade no meio da Quaresma que interrompe a caminhada penitencial com uma notícia que mudou a história: Deus precisava de um sim humano para entrar no mundo. E foi buscá-lo numa adolescente de Nazaré.
O anjo Gabriel entra onde Maria está e diz: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!" O texto de Lucas é discreto, mas o detalhe é imenso — Maria "ficou perturbada" e "começou a pensar qual seria o significado". Ela não entendeu de primeira. Não teve uma iluminação mística instantânea. Teve dúvida. Fez pergunta: "Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?" Maria não era passiva. Ela pensou antes de responder.
E a resposta do anjo não elimina o mistério — aprofunda: "O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra." Nenhum manual de instruções. Nenhuma garantia de que seria fácil. Apenas a afirmação de que Deus estaria presente no processo. E então vem a frase mais corajosa da história: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra."
O que chama atenção é que esse "sim" ecoa por todas as leituras do dia. Na carta aos Hebreus, Cristo diz ao entrar no mundo: "Eis que eu venho para fazer a tua vontade." No Salmo, a mesma disponibilidade: "Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade, Senhor!" É como se a liturgia inteira girasse em torno de uma única atitude: estar disponível.
Disponibilidade. Não é uma palavra que a gente associa a coragem. Parece coisa passiva, de quem está esperando ordem. Mas o "sim" de Maria não tem nada de passivo. É a decisão mais ativa que alguém pode tomar — aceitar que a vida vai mudar de forma irreversível, sem controlar o resultado, confiando que quem pede é confiável.
No seu cotidiano, disponibilidade pode ser algo bem menos dramático — e nem por isso menos real. É ouvir de verdade quando alguém te conta algo difícil, em vez de já pensar no que responder. É aceitar aquela tarefa no trabalho que ninguém quer, não por obrigação, mas porque você sabe que pode fazer diferença. É abrir espaço na agenda para o que importa, mesmo que isso signifique dizer não para o que só parece urgente.
A gente vive tentando controlar o roteiro. Maria nos mostra que às vezes o melhor que podemos fazer é dizer: "Não entendo tudo, mas estou aqui."
Hoje, diante de alguma situação que você tem evitado — uma conversa, uma decisão, um chamado que insiste em voltar — experimente parar de fugir. Não precisa ter tudo resolvido. Diga, com a honestidade que puder: "Estou aqui." E veja o que Deus faz com a sua disponibilidade.
Que Deus abençoe sua oração.