Você já parou para pensar em quanto da sua vida depende de coisas que começaram antes de você? A casa onde você cresceu foi construída por alguém. A língua que você fala foi moldada por milhões de bocas ao longo dos séculos. A fé que você carrega — ou questiona — chegou até você através de uma corrente de mãos que se estende por milênios. Ninguém começa do zero. A gente sempre entra no meio de uma história que já estava acontecendo.
Estamos na Quaresma, na sua quinta semana, quase às portas da Semana Santa. E as leituras de hoje nos colocam diante de uma das ideias mais desconcertantes da fé: a eternidade de Deus atravessando o tempo humano.
Na primeira leitura, Deus faz uma aliança com Abrão. Muda seu nome para Abraão — "pai de uma multidão de nações". Imagine a cena: um homem idoso, sem filhos, ouvindo que dele nasceriam nações inteiras. "Estabelecerei minha aliança entre mim e ti e teus descendentes para sempre; uma aliança eterna." Para sempre. Abraão não tinha como verificar essa promessa. Ele só podia confiar.
O salmo ecoa essa memória: "O Senhor se lembra sempre da Aliança." Deus não esquece. Nós esquecemos — a consulta marcada, o aniversário do amigo, a promessa que fizemos na dificuldade. Mas Deus não esquece. Sua fidelidade não depende da nossa.
E então vem o Evangelho, e Jesus diz algo que faz o chão tremer: "Antes que Abraão existisse, eu sou." Não disse "eu era" — disse "eu sou". Presente. Eterno presente. Os ouvintes ficaram tão perturbados que pegaram pedras para apedrejá-lo. Porque entenderam exatamente o que ele quis dizer.
Jesus está dizendo que ele é anterior a tudo. Antes de Abraão, antes da aliança, antes da promessa — ele já estava lá. E se ele já estava lá antes de Abraão, estava lá antes de você também. Antes do seu primeiro choro, antes da sua primeira dúvida, antes do dia em que você achou que Deus tinha esquecido de você.
Tem algo profundamente consolador nisso. A gente vive tão preso ao presente — ao prazo de amanhã, à conta que vence, ao relacionamento que não resolve — que esquece que está dentro de algo muito maior. A sua história não começa em você e não termina em você. Deus fez uma aliança com Abraão há milênios, e essa aliança ainda está de pé. Ela chegou até aqui. Ela chegou até você.
A Quaresma nos convida a olhar para trás — não com nostalgia, mas com gratidão. E a olhar para frente — não com ansiedade, mas com confiança. Porque se Deus se lembrou da aliança por milênios, ele não vai esquecer de você na quarta-feira que vem.
Hoje, tente fazer uma coisa simples: pare por um minuto e pense em alguém que plantou algo na sua vida de fé. Um avô que rezava o terço. Uma professora de catequese. Um amigo que disse a coisa certa na hora certa. Agradeça em silêncio por essa pessoa. Você é parte de uma corrente. E alguém depois de você vai precisar do elo que você é agora.
Que Deus abençoe sua oração.