Você já reparou no que acontece quando alguém morre? O perfil da pessoa vira um mural. "Que ser humano iluminado." "Devo tudo a ele." "Foi quem mais me apoiou." Vêm fotos antigas, áudios guardados, homenagem em vídeo. E, no meio de tanto carinho, sempre tem alguém que lê tudo aquilo em silêncio e pensa: onde é que essa gente estava nos últimos cinco anos? Porque quem conviveu de perto sabe que a pessoa almoçava sozinha, mandava mensagem e ficava sem resposta, foi ficando invisível bem devagar. As flores chegaram lindas. Chegaram tarde.
Estamos na 21ª semana do Tempo Comum, o período verde do ano, esse tempo sem festa grande em que a Igreja nos ensina a coisa mais difícil de todas: prestar atenção no que é ordinário. E a Palavra de hoje mexe justamente aí.
Jesus está falando com os líderes religiosos do seu tempo e diz uma frase que parece elogio, mas é espelho: "Vós construís sepulcros para os profetas e enfeitais os túmulos dos justos, e dizeis: 'Se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos sido cúmplices da morte dos profetas'".
Repare no detalhe. Eles estavam fazendo algo bonito. Cuidavam dos túmulos, restauravam a memória dos profetas, mantinham vivo o nome de quem tinha sido perseguido. O problema não era o monumento. Era que o monumento tinha virado um jeito de dizer "eu teria sido diferente" sem precisar ser diferente hoje. É fácil se indignar com a injustiça de cem anos atrás. Ela não pede nada da gente.
Por isso Jesus é tão direto: "Ai de vós, mestres da Lei e fariseus hipócritas!". Não é raiva. É o alerta de quem enxerga o buraco que ninguém quer ver. Dá para admirar profeta morto e continuar ignorando o profeta que está sentado do seu lado, incomodando com uma verdade que você preferia não ouvir.
E aqui entra Paulo, na primeira leitura, com uma coerência que impressiona. Ele podia ter cobrado sustento da comunidade, tinha esse direito, mas escreve: "trabalhamos com esforço e cansaço, de dia e de noite, para não sermos pesados a ninguém". Paulo não ergueu monumento para si. Mostrou o Evangelho no cansaço das próprias mãos, no dia comum, sem plateia. O salmo canta a mesma coisa de outro jeito: "Do trabalho de tuas mãos hás de viver, serás feliz, tudo irá bem".
A gente vive uma versão bem atual disso. É mais confortável postar sobre uma causa do que ouvir o colega que está afundando na mesa ao lado. É mais fácil admirar um santo canonizado do que ligar para a tia difícil que ninguém aguenta. É mais leve chorar num documentário do que atravessar a rua e falar com o vizinho que está sozinho desde que a esposa morreu. Reconhecimento póstumo é barato. Reconhecimento agora custa tempo, paciência e um pouco de constrangimento.
Mas tem uma boa notícia escondida nessa dureza toda. Se o problema é chegar tarde, então basta chegar. Ninguém aqui está condenado a ser eterno construtor de túmulos. Você ainda tem hoje. As pessoas que você talvez homenageie um dia estão vivas agora, com celular no bolso, esperando alguém lembrar delas sem motivo especial.
Então faça isso hoje, e faça em vida. Pense em uma pessoa que teve peso real no seu caminho e que você nunca agradeceu direito, ou em alguém que anda sumido do grupo e ninguém foi atrás. Mande a mensagem. Diga o nome dela, diga o que ela fez por você, diga que você lembra. Sem data comemorativa, sem motivo, sem esperar resposta bonita.
Flor em vaso vale mais do que coroa em velório. E ainda dá tempo.
Que Deus abençoe sua oração.