A fisioterapeuta pediu para o Marcos ficar de pé, descalço, na frente de uma parede quadriculada, e tirou uma foto de lado. Quando virou a tela do tablet para ele, Marcos levou um susto. A cabeça projetada para a frente, os ombros caídos, as costas arredondadas como quem carrega uma mochila invisível. "Faz quanto tempo que você anda assim?", ela perguntou. Ele não soube responder. Nunca tinha percebido. Para ele, aquela era simplesmente a sua altura.
Estamos na 30ª semana do Tempo Comum, e o Evangelho de Lucas nos coloca dentro de uma sinagoga, num sábado, diante de uma mulher assim. Lucas conta que ela "era encurvada e incapaz de se endireitar", e isso fazia dezoito anos.
Dezoito anos é muito tempo. É tempo de uma criança nascer e ficar maior de idade. Dezoito anos vendo o mundo pela altura dos joelhos dos outros. Os pés de quem passa, a poeira do chão, a barra das roupas. Quem anda assim não vê rosto. Não vê céu. E, com o tempo, talvez até esqueça que existe um céu.
Mas Jesus a vê. Lucas é preciso: "Vendo-a, Jesus chamou-a e lhe disse: 'Mulher, estás livre da tua doença'." Ela não pediu nada. Não gritou, não abriu caminho na multidão. Foi ele quem reparou. Depois coloca as mãos sobre ela, "e imediatamente a mulher se endireitou, e começou a louvar a Deus". A primeira coisa que ela faz de pé é olhar para cima.
E aí vem a parte estranha. O chefe da sinagoga fica furioso. Existem seis dias para curar, ele diz, venham em outro dia. Para ele, a mulher podia esperar mais um pouco. Dezoito anos, dezoito anos e um dia, qual a diferença? Jesus responde com uma imagem do campo: vocês soltam o boi e o jumento no sábado para dar de beber, e esta "filha de Abraão" não merece ser solta? Quem já esperou dezoito anos não precisa de mais um dia de espera. Precisa de hoje.
A carta aos Efésios, na primeira leitura, termina com uma frase que parece escrita para essa mulher: "Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz." É frase para ler de cabeça erguida.
Talvez você não ande curvado no corpo, mas conheça bem essa postura por dentro. A mágoa antiga que você carrega desde a separação dos seus pais. O medo que se instalou depois daquela demissão. A vergonha de uma decisão de anos atrás, que ainda faz você baixar os olhos quando o assunto aparece. Coisas que foram entortando a alma aos poucos, tão devagar que você passou a achar que é assim mesmo. Que essa é a sua altura.
E pode ser que alguém, até dentro da igreja, tenha dito que não era hora. Que você esperasse. Que tem dia certo para isso. O Evangelho de hoje não concorda. Para Jesus, qualquer dia é dia de endireitar alguém.
Tem também o outro lado. Ao seu redor existem pessoas encurvadas que ninguém nota, de tão acostumado a vê-las assim. O colega que sempre almoça sozinho. A tia que fala pouco nas reuniões de família desde que ficou viúva. Jesus reparou antes de curar. Às vezes, o primeiro passo da cura é alguém perceber.
Hoje, faça um gesto simples: em algum momento do dia, pare, endireite as costas, levante o queixo e olhe para cima, nem que seja para o teto do escritório ou para o céu da janela do ônibus. Diga a Deus o nome daquilo que tem te curvado. Depois, olhe em volta e escolha uma pessoa que anda de olhos no chão para chamar pelo nome.
Que Deus abençoe sua oração.