Cinco e meia da manhã, Jabaquara, zona sul de São Paulo. A fila para entrar no Santuário de São Judas Tadeu já dobra a esquina. Tem gente de terno indo para o trabalho, mãe com criança dormindo no colo, um senhor segurando uma pasta de exames, uma moça de uniforme de hospital. Muitos trazem uma fita verde e branca amarrada no pulso. Cada um carrega um pedido que, em casa, alguém já chamou de impossível. E todo dia 28 é assim, em São Paulo e em tantas igrejas pelo Brasil.
Hoje a Igreja celebra a Festa dos Apóstolos São Simão e São Judas Tadeu, e a cor vermelha dos paramentos lembra que eles deram a vida pelo Evangelho. Sabemos pouco sobre os dois. Simão é chamado de "Zelota", talvez por ter sido um homem inflamado, de posições fortes. Judas, "filho de Tiago", carregou por séculos um nome que se confundia com o do traidor, e por isso, conta a tradição, muita gente evitava pedir sua intercessão. Talvez venha daí a fama carinhosa: o santo lembrado quando todos os outros caminhos já foram tentados.
O Evangelho conta como eles foram escolhidos. "Jesus foi à montanha para rezar. E passou a noite toda em oração a Deus." Só depois, "ao amanhecer", ele chama os doze. Antes de qualquer lista, houve uma noite inteira de conversa com o Pai. Simão e Judas não foram um acaso de recrutamento. Foram rezados.
E logo em seguida, Jesus desce com eles para um lugar plano, onde uma multidão o espera. Gente "de toda a Judéia e de Jerusalém, do litoral de Tiro e Sidônia". Vieram "para ouvir Jesus e serem curados de suas doenças". É quase a fila do Jabaquara, dois mil anos antes.
A carta aos Efésios ajuda a entender o que acontece entre a montanha e a planície. Paulo diz a quem se sentia de fora: "já não sois mais estrangeiros nem migrantes, mas concidadãos dos santos. Sois da família de Deus." E explica que essa família é como uma construção "que tem como fundamento os apóstolos e os profetas, e o próprio Jesus Cristo como pedra principal".
Quem já acompanhou uma obra de casa no Brasil, daquelas que a família levanta aos poucos, nos fins de semana, sabe: ninguém repara no alicerce depois que a casa fica pronta. Ele está enterrado, sujo de terra, escondido debaixo do piso. Mas é ele que segura tudo. Simão e Judas são isso: pedras de base, quase anônimas, sobre as quais a fé chegou até você.
E o mais bonito: Paulo diz que "vós também sois integrados nesta construção". Quem está na fila das cinco e meia, com a pasta de exames na mão, não é visitante. É tijolo da mesma obra. O seu pedido impossível não fica do lado de fora da igreja esperando a vez. Ele entra junto com você, na casa de uma família que já tem um lugar reservado para o seu nome.
Por isso a devoção a São Judas não é superstição de quem perdeu a esperança. É a intuição de que, quando tudo parece fechado, a gente não está sozinho. Há uma família inteira de santos rezando junto, e um Jesus que passou a noite em oração antes de chamar cada um.
Hoje, leve a Deus o seu caso mais difícil, aquele que você nem gosta de mencionar. Peça a intercessão de São Judas Tadeu com palavras suas, sem fórmula decorada. E depois ofereça sua própria presença a alguém que está numa situação que parece sem saída: uma ligação, uma visita, uma companhia na sala de espera. Às vezes, é assim que você vira alicerce para alguém.
Que Deus abençoe sua oração.