Você provavelmente já esteve numa situação em que tinha uma saída, mas não a tomou. Não porque estava preso — mas porque escolheu ficar. Talvez tenha ficado numa conversa difícil com alguém que ama. Talvez tenha ficado do lado de alguém que sofria, quando a coisa mais fácil seria dar uma desculpa e sumir.
Esse tipo de escolha fica na memória.
Hoje é Domingo de Ramos. A Igreja entra com palmas e aclamação, e sai com o peso da Paixão. Em uma única celebração, percorremos o caminho de “Hosana!” ao “Crucifica-o!” — e esse percurso diz algo muito verdadeiro sobre a natureza humana. E sobre Deus.
O que mais prende na narrativa de hoje é uma cena que Mateus registra com poucas palavras, em Getsêmani: Jesus se prostrou com o rosto por terra e rezou: “Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice.” Ele sabia o que estava vindo. Sentia medo. Tinha angústia — Mateus usa essa palavra, não a suaviza.
E havia uma saída. Ele mesmo diz isso quando impede Pedro de usar a espada: “Ou pensas que eu não poderia recorrer ao meu Pai e ele me mandaria logo mais de doze legiões de anjos?” A saída existia. Estava disponível. Não era metáfora.
Ele não a tomou.
Isaías, na primeira leitura, fala do Servo que ofereceu as costas para as chicotadas e as faces para quem arrancava a barba. “Não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. Mas o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo.” Essa imagem de não desviar é o fio que atravessa o dia inteiro. Jesus não desvia. Não quando Judas o beija. Não quando Pedro o nega. Não quando Pilatos lava as mãos. Não quando a multidão — a mesma que ontem gritava Hosana — agora grita “Crucifica!”
São Paulo, na carta aos Filipenses, vai ainda mais fundo: “Ele esvaziou-se a si mesmo.” O verbo em grego é kenôsis — esvaziar, despojar. Aquele que existia em condição divina escolheu não se agarrar a isso. Escolheu a forma de escravo. Escolheu a morte de cruz.
Por quê?
Não há resposta simples. Mas há uma que o Evangelho sustenta em cada cena: um amor que não recua. Não o amor dos filmes, que é fácil quando é correspondido. O amor que permanece quando o outro some, quando a multidão muda de lado, quando os mais próximos dormem enquanto você está em agonia.
O Salmo de hoje começa com o grito que Jesus vai repetir na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” É um grito real. Não é encenação. É a pergunta mais humana que existe — aquela que a gente também faz nos momentos mais escuros. Só que o Salmo não termina no abandono. Termina no louvor, na confiança. A oração que começa em desespero chega num lugar diferente.
É isso que a Semana Santa convida a gente a acompanhar: não um ritual distante, mas o percurso de alguém que passou pelo mais fundo e não desistiu. Que podia ter ido embora, e não foi.
Hoje, a pergunta é simples: há algo em você que também está pedindo para ser diferente — uma situação difícil, um relacionamento complicado, uma responsabilidade que você gostaria de não ter? Talvez o convite do Domingo de Ramos seja exatamente este: antes de pegar a saída disponível, sentar um momento com a oração de Getsêmani. “Não seja feito como eu quero, mas como tu queres.” Não como resignação, mas como entrega. Como a escolha de quem decidiu não desviar o rosto.
Que Deus abençoe sua oração.