Você já teve aquela sensação de estar no lugar errado? Sabe, aquela impressão de que deveria estar fazendo outra coisa, sendo outra pessoa, vivendo de um jeito diferente? A maioria de nós conhece isso. E no meio dessa confusão, existe uma voz quieta que tenta dizer alguma coisa — mas a gente logo abafa com uma playlist, uma notificação, mais uma reunião que empurra aquela conversa interna para depois.
Nesse Tempo Pascal, enquanto a ressurreição ainda ecoa na vida da Igreja, a liturgia de hoje traz uma cena que parece distante — uma reunião de profetas em Antioquia no primeiro século — mas que fala diretamente para esse lugar em nós.
Os Atos dos Apóstolos descrevem uma Igreja viva, reunida em oração e jejum. E é exatamente nesse momento de silêncio diante de Deus que o Espírito Santo fala com clareza: "Separai para mim Barnabé e Saulo, a fim de fazerem o trabalho para o qual eu os chamei" (At 13,2). Repare: não é um chamado genérico para "serem boas pessoas". É específico. Tem nome. Tem missão.
E o Evangelho de João completa esse quadro com uma fala de Jesus que surpreende pela ternura: "Eu vim ao mundo como luz, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas" (Jo 12,46). Não vim para julgar. Vim para iluminar. Há uma diferença enorme aí. A luz não critica o quarto bagunçado — ela simplesmente revela onde estão as coisas para que você possa se encontrar.
Hoje celebramos Santa Catarina de Sena, uma mulher do século XIV que escreveu cartas para papas e reis, que entrou em ambientes onde "não devia estar", que seguiu um chamado claro mesmo sem ter as credenciais que o mundo exigia. Ela não esperou que tudo estivesse perfeito para agir. Ela foi porque sabia que havia sido chamada para aquilo.
A gente vive num tempo em que a palavra "propósito" virou produto — curso online, coach, podcast de autoajuda. Mas o que os Atos nos mostram é que o chamado não nasce de uma análise de forças e fraquezas num caderno de planejamento. Ele emerge no silêncio, na oração, na comunidade reunida ao redor de Deus. Foi assim com Saulo. Foi assim com Barnabé. Foi assim com Catarina.
E a boa notícia do Evangelho de hoje é que Jesus não chega na sua vida como juiz de um concurso onde você precisa mostrar que já chegou lá. Ele chega como luz. Você não precisa estar pronto; precisa apenas não fechar os olhos diante da claridade.
Hoje, reserve dois minutos — pode ser no ônibus, na fila do almoço, antes de dormir — e pergunte ao Espírito Santo: "Para o quê você me chamou hoje?" Não para a vida inteira, não para os próximos dez anos. Para hoje. Às vezes o chamado é pequeno: uma conversa corajosa, um pedido de desculpa, um silêncio onde você costuma encher de barulho. Deus não precisa de holofotes para falar. Ele fala no murmúrio — e a liturgia de hoje nos convida a parar um instante para ouvir.
Que Deus abençoe sua oração.