No fim da tarde, o céu de Porto Alegre fechou de repente. No ponto de ônibus da Avenida Assis Brasil, uma mulher de uniforme de supermercado abriu a jaqueta e puxou o filho de uns seis anos para dentro dela. A chuva vinha de lado, o guarda-chuva virou do avesso, e ela ficou ali, meio encharcada, com o menino seco contra o peito. Ninguém ensinou isso a ela. Ela simplesmente sabia o que fazer quando a tempestade chegasse.
Estamos na 30ª semana do Tempo Comum, já perto do fim do ano litúrgico, quando as leituras começam a falar de firmeza, de resistência, de chegar até o fim. E o Evangelho de hoje junta duas coisas que a gente costuma achar que não combinam: coragem e ternura.
Alguns fariseus chegam a Jesus com um aviso: "Tu deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar". A resposta dele não tem nada de medo. Ele chama o rei de raposa e diz que vai continuar fazendo o que faz: expulsar demônios, curar, caminhar "hoje, amanhã e depois de amanhã". Jesus não negocia a própria missão com quem ameaça. Ele sabe para onde está indo e não muda a rota.
Mas logo em seguida, o mesmo Jesus que enfrenta Herodes sem piscar deixa escapar um lamento quase doméstico: "Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintainhos debaixo das asas, mas tu não quiseste!" Repare na imagem. Não é um leão, não é uma águia. É uma galinha. O bicho mais comum do quintal, que não tem garra nem bico afiado, mas que abre as asas e se põe entre os filhotes e o perigo.
Paulo, na primeira leitura, fala de armadura: "Tomai o escudo da fé", o capacete, a couraça, a espada da Palavra. Parece o oposto da galinha, mas não é. A armadura de Deus não serve para atacar ninguém. Serve para a gente ficar de pé, como a mulher no ponto de ônibus, sem sair correndo quando a chuva aperta. E a força que Paulo descreve termina num gesto de cuidado: "orai em todas as circunstâncias", "intercedendo por todos". O soldado de Deus acaba de joelhos, rezando pelos outros.
A gente costuma separar as coisas. Ou você é firme, e aí vira alguém duro, que não se deixa tocar. Ou você é terno, e aí vira alguém frágil, que qualquer vento derruba. Jesus mostra um terceiro caminho. Firme por fora diante da raposa. Aberto por dentro para quem precisa de abrigo.
Pense em quem vive assim ao seu redor. O pai que segura as pontas depois de uma demissão e ainda arruma tempo para ajudar a filha com a lição. A enfermeira que encara um plantão pesado e mesmo assim segura a mão do paciente que tem medo da cirurgia. A avó que já enterrou gente demais e continua sendo a casa onde todo mundo se refugia no Natal. Essas pessoas não são ingênuas. Sabem que existe Herodes no mundo. Só decidiram que o medo não vai dar a última palavra.
E há um detalhe doloroso no Evangelho: "mas tu não quiseste". Deus abre as asas, mas não arrasta ninguém para dentro delas. Às vezes a gente fica do lado de fora por orgulho, por cansaço, por achar que dá conta sozinho. As asas continuam abertas mesmo assim. O Salmo diz isso com todas as letras: "Ele é meu amor, meu refúgio, libertador, fortaleza e abrigo".
Hoje, escolha uma pessoa que está atravessando uma tempestade e seja, por alguns minutos, asa para ela. Uma ligação sem pressa, uma marmita deixada na porta, uma oração com o nome dela dita em voz baixa no caminho do trabalho. E se a tempestade for sua, faça o movimento mais difícil: aceite entrar debaixo das asas. Não precisa ter tudo resolvido. Precisa só parar de correr sozinho na chuva.
Que Deus abençoe sua oração.