Tem aquela pessoa da sua rua que você viu crescer. Empurrou o carrinho de rolimã, jogou bola descalço, ajudou o pai na oficina. Aí, anos depois, ela volta transformada, dizendo coisas que mexem com você, e a primeira reação não é admiração: é desconfiança. "Mas esse aí? Eu conheci ele de fralda." A gente arruma um jeito de encaixar todo mundo numa caixinha e fica bravo quando a pessoa não cabe mais nela.
Foi exatamente isso que aconteceu com Jesus quando ele voltou a Nazaré. As pessoas ouviam, ficavam admiradas, e no segundo seguinte tropeçavam no que já sabiam: "Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria?" (Mt 13,55). Conheciam o endereço, os parentes, a profissão do pai. E por causa disso não conseguiram enxergar o que Deus estava fazendo bem na frente deles. O evangelho termina com uma frase que dói: "Jesus não fez ali muitos milagres, porque eles não tinham fé" (Mt 13,58). Não foi falta de poder de Deus. Foi excesso de certeza da parte deles.
Com Jeremias tinha sido parecido. Deus manda ele ficar de pé no pátio do Templo e falar sem tirar uma palavra sequer, na esperança de que o povo escute e mude de caminho (Jr 26,2-3). E o que ele recebe em troca? "Este homem tem que morrer!" (Jr 26,8). Quem traz uma palavra que incomoda a nossa zona de conforto quase sempre é tratado como inimigo. Porque é mais fácil calar o mensageiro do que rever a própria vida.
Hoje a Igreja celebra Santo Inácio de Loyola, e não dá para pensar em nome melhor para essa página do evangelho. Inácio era um soldado vaidoso, sonhando com glória e conquistas, até uma bala de canhão despedaçar a perna dele numa batalha. Na cama, entediado, sem os romances de cavalaria que gostava, só sobrou a vida de Cristo e dos santos para ler. E ele começou a reparar numa coisa: certos sonhos o deixavam agitado e vazio depois; outros o deixavam com uma paz que durava. Foi assim, prestando atenção no que acontecia por dentro, que ele aprendeu a discernir a voz de Deus. Ninguém apostaria naquele militar ferido. Mas Deus não trabalha com os currículos que a gente monta para ele.
É disso que Inácio vive nos lembrando: Deus fala no meio do comum. No filho do carpinteiro, no soldado quebrado, na sua rotina de terça-feira. O lema que ficou dele é simples e enorme: em tudo amar e servir. Não em coisas grandes, extraordinárias, longe daqui. Em tudo. No trabalho que cansa, na paciência com quem mora com você, na decisão pequena que você precisa tomar hoje e ainda está empurrando.
O risco que Nazaré correu é o mesmo nosso: achar que já conhecemos Deus, já conhecemos as pessoas, já sabemos como tudo vai ser, e por isso fechar a porta antes da graça entrar. O salmo de hoje é uma oração para não endurecer: "Respondei-me pelo vosso imenso amor, pela vossa salvação que nunca falha" (Sl 68,14). Deus não desistiu de falar. A pergunta é se a gente ainda está disposto a se surpreender.
Então aqui vai o convite para hoje, no jeito de Inácio. Reserve cinco minutos antes de dormir e faça o que ele chamava de exame: olhe o dia que passou e pergunte duas coisas. Onde eu senti paz, gratidão, vida hoje? E onde eu senti aquele aperto, aquela agitação vazia? Não para se cobrar nem se culpar, mas para reconhecer por onde Deus estava passando e você quase não viu. Se identificar um lugar de paz, agradeça e volte para lá amanhã. É o primeiro passo de quem quer, em tudo, amar e servir.
Que Deus abençoe sua oração.