Tem uma cena que se repete em quase toda família. Alguém que a gente viu crescer, que conheceu desengonçado e inseguro, começa a dizer coisas verdadeiras. Fala algo que abre uma janela na sala. E a primeira reação não costuma ser escutar. É comparar com a versão antiga da pessoa: "esse aí? eu conheço ele desde pequeno". A gente guarda cada um numa gaveta e depois se recusa a abrir a gaveta de novo.
Estamos no Tempo Comum, esse tempo verde e sem holofote em que a Igreja aposta que Deus age dentro da rotina. E a cena de hoje acontece justamente no lugar mais rotineiro que Jesus tinha: a sinagoga da cidade onde ele cresceu. Ele lê o profeta Isaías, fecha o livro, senta. Todos os olhos fixos nele. E então diz: "Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir".
Por um instante, funciona. O texto conta que estavam "admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca". Mas aí vem a frase que estraga tudo: "Não é este o filho de José?"
Repare que não é uma pergunta sobre teologia. É uma pergunta sobre currículo. Eles não discutiram o que ele disse, discutiram de onde ele vinha. Conheciam a mãe, a profissão do pai, a casa, a rua. E decidiram que quem eles conheciam tão bem não podia ter nada de novo para dizer.
O incômodo aumenta quando Jesus lembra duas histórias antigas: Elias foi enviado a uma viúva estrangeira, Eliseu curou um sírio. Ou seja, a graça de Deus tem o péssimo costume de chegar onde ninguém apostava. Isso os deixou furiosos. Não porque Jesus falou pouco de Deus, mas porque falou de um Deus grande demais para caber na expectativa deles.
Paulo entendeu isso na pele. Ele escreve aos coríntios que, ao anunciar o mistério de Deus, "não recorri a uma linguagem elevada ou ao prestígio da sabedoria humana". Nada de discurso brilhante, nada de credencial. Ele chegou pequeno, e foi assim que a fé daquela gente encontrou onde se apoiar: não na performance dele, mas em Deus.
Isso encosta na sua semana de um jeito bem concreto. Talvez você esteja esperando que Deus fale por um canal impressionante: um retiro marcante, uma resposta clara, um sinal grande o suficiente para não deixar dúvida. E, enquanto isso, ele pode estar falando pelo colega de trabalho que você já classificou como chato. Pelo filho adolescente que você acha que ainda não entende nada. Pela pessoa com quem você divide a casa há quinze anos, cuja opinião você já sabe de cor antes de ela terminar a frase. Pela sua própria vida comum, sem nada de espetacular, que você acha que não serve de material para Deus.
E tem o outro lado. Talvez você seja o filho de José da história, aquele que os outros já decidiram quem é. Que carrega o rótulo do erro antigo, da fase difícil, do "eu conheço bem esse aí". Guarde o final da cena: eles quiseram jogá-lo do precipício, e "Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho". O julgamento dos outros não teve a última palavra sobre ele. Também não tem sobre você.
Hoje, escolha uma pessoa que você já tem catalogada, aquela de quem você acha que já sabe tudo. Faça uma pergunta de verdade e escute até o fim, sem completar a frase dela na sua cabeça. Talvez não aconteça nada. Mas talvez Deus estivesse esperando exatamente essa fresta para dizer alguma coisa que você precisava ouvir.
Que Deus abençoe sua oração.